Mafalda


terça-feira, maio 27, 2008


Liberdade e equipe

Discorrer sobre o tema liberdade sempre me fascinou. E agora que passo a maior parte do tempo num local onde a falta dela faz parte do cotidiano de muitos, não consigo deixar de pensar sobre a condição de ser livre.
No início do meu curso de psicologia, entrei em conflito ao constatar que segundo algumas linhas de pensamento, a liberdade é ilusória. De forma bastante simplista: para os comportamentalistas, somos determinados pelo ambiente – toda ação é condicionada; para a psicanálise, também não somos livres, pois os desejos inconscientes conduzem o nosso agir. Mas para o meu contentamento e alívio, conheci um pouco da filosofia de Sartre: a liberdade não só existe, como também é uma condição humana. Somos livres para escolher. Porém, esta liberdade nos torna responsáveis não só pelo que nos tornamos: ao escolher que tipo de indivíduo queremos ser, estamos traçando um projeto de humanidade (ou para a humanidade). Em outras palavras: estamos escolhendo que tipo de humanidade desejamos construir.
Trabalhar numa instituição, onde há pessoas com diferentes anseios, é conflitante: as escolhas e/ou postura profissional de cada um, não raro, interfere em todo contexto profissional. Pois quando um profissional escolhe para si qual o papel que ele deseja desempenhar, ele também está elegendo o lugar que deseja trabalhar, ou seja, ele está construindo a instituição/serviço por ela prestado. Assim, quando temos concepções distintas de nossa função e/ou da função da instituição como um todo, é difícil se concretizar um projeto unificado.
Quando trabalhamos em equipe, a busca pela liberdade deve ser feita em nome do bem comum. A liberdade e o altruísmo devem caminhar juntos. É preciso renunciar às escolhas pessoais, às vaidades e ao comodismo. É preciso ser livre o suficiente para não se deixar levar por anseios egoístas, como status e reconhecimento social. No trabalho em equipe, é livre aquele que mesmo diante de inúmeros obstáculos nunca perde de vista a imagem da instituição que sonha construir.

quarta-feira, maio 14, 2008


Antes de tudo, adolescentes
A liberdade é e sempre foi a liberdade dos que discordam (Rosa Luxemburgo)

A busca pela liberdade é uma das características da adolescência. O adolescente necessita diferenciar-se da figura paterna e materna para sentir-se livre, questionando o que lhe foi transmitido até então. É próprio dele a não aceitação passiva de regras impostas pelos mais velhos...
Quando um jovem comete um ato infracional grave e de proporções midiáticas, a população, levada por notícias sensacionalistas, indigna-se e pede a redução da maioridade penal. Porém, “crimes hediondos” praticados por adolescentes não são corriqueiros. Também é comum ouvirmos que passar três anos numa instituição onde há escola e outras atividades pedagógicas, além de ser um privilégio, é muito pouco tempo para um adolescente autor de um homicídio. Mas quem pensa desta forma, certamente não vê um adolescente e sim um malfeitor, o que é de certo modo inteligível: se já é difícil para um adulto compreender o menino que é seu filho ou aluno ou vizinho, imaginem o que é para este mesmo adulto entender um jovem que cometeu um ato infracional equiparável a um crime...
Embora o desejo de muitos seja julgar os adolescentes em conflitos com a lei tal como adultos criminosos, é preciso que deixemos de olhar o menino como se ele fosse o ato infracional cometido: antes de tudo ele é uma pessoa em fase de desenvolvimento e, sendo assim, sua recuperação é possível. Além disso, o adolescente, ao ser internado, já está sancionado. Pensem o que significa para um menino de 14, 15 ou 16 anos, por exemplo, estar privado de sua liberdade. Imaginem o que é ser impedido de questionar as normas e seguir com disciplina os horários de todas as atividades, inclusive dormir e alimentar-se. Quem não tem um filho adolescente, tente lembrar da própria adolescência. Façam um exercício de compaixão e coloquem-se no lugar destes garotos. Esqueçam, por um momento, que eles estão internados por transgredirem a lei. Se alcançarem tal feito, perceberão que é extremamente sofrível para qualquer adolescente não poder ser livre, seja por um mês, seja por três anos.

sexta-feira, maio 02, 2008


Recesso

Mudanças exigem um período de adaptação. Eu estava acostumada a escrever altas horas da madrugada, rodeada por muita fumaça. Foi assim desde o princípio. Não havia limites, não havia o despertador pela manhã...
Agora meu cotidiano é outro. Estou em transição. Não tenho meu canto ainda. Cigarros longe do computador. Durmo cedo. É impossível no momento estar só para escrever. Aconselham-me a usar o papel. Mas já não sei. A tela e o teclado inspiram-me. Preciso de um ritual.
Sinto falta de quando dormir não era preocupação. Escrever era um deleite, mesmo quando eu deixava para a última hora (há três semanas não envio um texto para o jornal). É como se faltasse uma parte de mim. Temo tornar-me uma operária. Trabalhar e dormir. Eu preciso de mais!
Porém, sei que agora terei muito para contar. Só preciso de um quarto, um computador e uma boa noite de sono.
Eu voltarei.

sexta-feira, abril 18, 2008

Je te defie de m'aimer

Sai em busca do futuro. E neste presente ausente encontrei o passado. Estou costurando o passado... Descobri que minha natureza é ser livre e querer subvertê-la significa minha paulatina destruição. Quero ser livre, quero amores platônicos apenas. Quero fantasiar... Querro amar o mundo! Todo o mundo! Chegou a hora de amar a mim mesma. Chega de paixões delirantes! Deixarei a Terra do Nunca...Brindarei à Sala de Jantar, mas meu espírito continuará intacto. Gosto do que sou. Gosto de acreditar no outro. Se ele me seduz, ilude-me, ludibria-me e me engana não sou eu quem está perdendo... Continuarei vivendo profundamente, mas não mais na vida de outro alguém. Viverei profundamente a minha vida! Farei planos, terei sonhos que dependerão apenas de mim. Jogar-me-ei no mundo. Ele me conduzirá... Não me submeterei a caprichos de ninguém. Não renunciarei a quem sou.
Pensei ter me perdido quando na realidade me encontrava.

(semana atípica, texto atípico)

quinta-feira, abril 10, 2008

Deixe vir a tempestade

Li parcialmente uma reportagem que criticava o abuso de antidepressivos. Ultimamente, sentir-se triste tem virado sinônimo de depressão. E para evitar o sofrimento, recorre-se a um medicamento (De forma alguma estou querendo afirmar que médicos psiquiatras receitam antidepressivos indiscriminadamente. Infelizmente ainda é fácil obter tais remédios sem prescrição médica). Evita-se o pesar e almeja-se uma felicidade constante, o que é humanamente é impossível.
É certo que a tristeza não é desejável. Mas no geral, amadurecemos depois de passarmos por alguma privação. E como bem lembrou a reportagem, Van Gogh, Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Friedrich Nietzsche entre muitos outros grandes nomes produziram seus maiores feitos em períodos de bastaste sofrimento. O que seria de nós se tais gênios não tivessem deixado aflorar a tristeza?
Acredito que exista uma pressão de todos os lados para que sejamos felizes. Os comerciais publicitários nos “ensinam” o caminho do sucesso, da alegria, do bem-estar. Nossos amigos e familiares, naturalmente, também nos querem ver sorrindo e de bem com a vida. No entanto, há certo pânico com relação à tristeza: ela vem se tornando um mal inconcebível. Ficar triste é quase um delito.
Temos medo de sofrer. Tememos logicamente porque não é agradável, mas também porque sabemos que é penoso lidar com alguém que não está bem: a tristeza pode levar à solidão. Algumas pessoas realmente conseguem evitar o sofrimento, mas o fazem ao não arriscar, ao se acomodarem num viver que não traz amarguras, mas também não traz crescimento. Outras tentam fugir da tristeza quando ela já se instalou o que, comumente, além do sofrimento, gera ansiedade.
Não é de se espantar que os casos de depressão aumentem enquanto a “ditadura da felicidade” se consolida. A obrigação impositiva de que devemos ser felizes sempre é absolutamente desumana. A tristeza é tão natural qualquer outro sentimento. Vivenciá-la com culpa maximiza a possibilidade de que ela se intensifique e realmente se transforme numa depressão...
A felicidade só existe comparada à tristeza. Estamos nos esquecendo disso.

quinta-feira, abril 03, 2008

Do avesso

Acredito que uma das melhores sensações seja a chamada “paz de espírito”. É extremante desconfortável estar em conflito com alguém. Sentir raiva, mágoa, ódio ou rancor deixa-nos amargurados. Por outro lado, saber que uma atitude, ainda que não intencional, provocou o sofrimento alheio deveria ser também bastante desagradável. Digo “deveria” porque é fácil reclamar do quanto fomos maltratados, mas quando somos levados a avaliar o quanto a nossa ação feriu o outro, minimizamos nossa responsabilidade ou pior: algumas pessoas simplesmente não se importam.
Fico estarrecida com pessoas que sentem prazer diante do sofrimento alheio. Gente assim não suporta que o outro se sobressaia. Ignora os grandes feitos da pessoa invejada e agem venenosamente. Espera um deslize e dá o bote. E fazem isso sem culpa, sem remorso. Eu fico me perguntando como alguém assim consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente...
Para minha infelicidade, percebo que minha indignação vem diminuindo. Conversando com uma amiga que foi passada para trás por uma colega de trabalho, eu falei: “o mundo está cheio de pessoas assim”. Obviamente eu senti muito por ela, mas o que ela me contou não me surpreendeu... Parece que o mundo, sobretudo o mercado de trabalho, não suporta mais sentimentos como compaixão: sofrer pelo outro está se tornando sinônimo de fraqueza.
Porém, eu me nego a responsabilizar o capitalismo ou a competitividade gerada por ele pela falta de humanidade. Afinal, somos nós quem constrói as relações, sejam elas de trabalho ou não. Se há algo errado, somente nós somos capazes de mudar. Mas normalmente nos acomodamos e não raramente divertimo-nos com o infortúnio alheio. Enquanto não atinge diretamente a nós ou a nossa família, comportamo-nos como meros expectadores e preferimos ignorar nossa cumplicidade.
Eu não imagino como seja viver sabendo que foi responsável pela destruição da vida de alguém. Ter “paz de espírito” para mim é crucial. Quando não me sinto assim, fico paralisada. Quem provoca um grande sofrimento, causa não só os danos intrínsecos ao ato, mas também gera no outro um sentimento de ódio que talvez jamais se dissipe.

quinta-feira, março 27, 2008


Dia de futebol

A decepcionante atuação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2006 e a lastimável campanha do Corinthians no último Brasileirão desmotivaram-me a assistir a partidas de futebol. Porém, sendo brasileira e tendo um pai que é apaixonado por futebol é difícil se distanciar totalmente deste esporte: quando vou jogar vôlei, o Campeonato Paulista é assunto corriqueiro e, na sala de minha casa, é difícil não encontrar a TV sintonizada num jogo ou num programa esportivo. Assim, mesmo sem muito esforço, mantive-me um pouco informada, mas não o suficiente...
Somente às 16h da última quarta, eu soube pelo meu pai que a Seleção faria um jogo festivo contra a Suécia dali a uma hora. Quando ele me informou, indaguei um tanto surpresa se era mesmo a seleção principal (há um tempo, um jogo assim não teria me passado despercebido e eu conheceria a escalação: tantos dos titulares como dos reservas). Liguei a TV quando a bola já estava para rolar, ou seja, não vi os nomes dos jogadores em campo. Para minha satisfação, nenhuns deles eram estranhos a mim. E confesso que fiquei feliz ao constatar que Ronaldinho Gaúcho e Kaká não estavam lá (ainda não engoli a atuação medíocre de ambos em 2006).
Achei o primeiro tempo bastante sonolento e Diego, em minha opinião, foi o melhor em campo. (Em tempo: desculpem-me os são-paulinos, mas pelo futebol apresentado quarta Richarlyson está longe de ser um lateral merecedor de um lugar na Seleção). Mas eu queria ver mesmo Alexandre Pato, o menino de 18 anos, goleador do Milan, jogar pelo Brasil. Estreou e brilhou: aquele golaço me fez sentir paixão pelo futebol novamente!
Quando eu achei que meu dia de futebol estava encerrado, minha irmã me contou que o Corinthians enfrentaria o Santos logo mais (e eu não sabia!). Então me acomodei para ver uma partida repleta de lances emocionantes (numa quantidade bem maior que a do jogo da Seleção). Seria perfeito se o árbitro não quisesse aparecer para decidir a partida (até o Pelé disse que o santista Kléber Pereira cometeu falta). De início, fiquei desanimada mais uma vez com futebol, mas bastou eu me lembrar da “arte” de Pato para perceber que ainda é bem gostoso torcer e gritar “goooooooooool”.

quinta-feira, março 20, 2008


Vazios

Era o fim. A partir daquele instante a vida dele perdeu todo sentido. Seu abatimento transpunha sua alma: tomava-lhe o corpo todo. Não era só a uma grande paixão que ele estava dizendo adeus. Era a todo um projeto de vida. Era o adeus à sua escolha que embora tenha sido a mais arriscada, foi talvez a única que ele fizera sem titubear.
Ele realmente a amara? Esta pergunta o atormentava dia após dia. Ele não sabia. Ele tentava se convencer que não passara de uma paixão. (Dizem que o cupido usa uma flecha porque ela é capaz de nos cegar). Ele se esforçava para acreditar que esteve cego e ludibriado pela paixão. Mas ele não deixava de pensar nela, ora com carinho, ora com rancor, ora com amor. Ele animava-se em esquecê-la, despojá-la de sua vida, mas seus sonhos traiam sua vontade.
Foi ele quem resolveu terminar. No entanto, ele jamais se sentiu como se o tivesse feito: achava que o fim se dera no momento em que ele deixou de se sentir amado. Ela negava que seu amor tivesse mudado. Para ele não era uma questão de palavras e sim de sensações, percepções, afetos. Foi penoso falar a ela: os dias que antecederam o fim foram atordoantes: ele mal dormia. Só decidiu quando se deu conta que ele ocupava muito pouco da vida dela, enquanto ela tomava-lhe cada segundo do seu cotidiano. Ele sabia que seu viver deixara de ser saudável e só tendia a piorar...
Nos primeiros instantes, sentiu uma espécie de alívio: não sofreria mais, não precisaria mais esperar por um carinho, não seria mais frustrado pelas as atitudes dela. Esta sensação durou pouco. Logo se instalou o vazio. O vazio de não tê-la, o vazio de não ter alguém a quem poderia chamar de “meu amor”. E era neste estado que, mesmo após dois meses ele se encontrava. Ele sabia que não seria sempre assim. Mas o tempo parecia cruelmente ter parado... Inevitavelmente, lembrava-se do início: os planos, a empolgação. Recusava-se a aceitar que ela era apenas aquela pessoa distante do final: não queria sentir-se iludido, não queria ter mágoas de sua outrora amada.
Ele jamais a compreendeu por inteiro. Ela nunca se deixou revelar. E ele acabou se tornando parecido com ela: em tempo nenhum se permitiu amar novamente.

quinta-feira, março 13, 2008

Deixe a dor falar mais alto! *

Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano seja lidar com a dor alheia. Ver alguém sofrendo nos emociona e nos mobiliza, mas também pode nos dar a sensação de que nada podemos fazer para ajudar. No entanto, mesmo que sejamos incapazes de cessar o sofrimento do outro, acredito que amenizá-la, nem que seja por alguns instantes, é sempre possível.
Quando vemos uma pessoa querida em estado de desespero, comumente queremos vê-la reagir. Dói ver alguém que apreciamos numa má condição, e mais: o sofrimento alheio interfere no nosso humor (sim, creio que somos “egoístas” o suficiente para pensarmos no nosso bem-estar, ainda que não tenhamos plena consciência disso). Assim, geralmente, nossa primeira ação é aconselhá-la, apresentando-lhe alternativas para suas dúvidas ou relatando nossas próprias experiências.
Certamente, alguns conselhos são bem vindos, pois através deles pode surgir uma saída que a pessoa em estado de sofrimento não consegue encontrar. No entanto, esquecemo-nos que talvez aquele que está à nossa frente, desesperado e melancólico, necessita, sobretudo, falar. E muitas vezes a melhor forma de aliviar sua dor seja escutá-lo com atenção e acolhê-lo com nosso olhar.
É aparentemente fácil e simples ouvir. Porém, praticamos pouco. Talvez a pressa cotidiana, talvez os questionamentos que as sofridas palavras alheias nos levam a fazer sobre nós mesmos e/ou mesmo nosso ímpeto de resolver rapidamente a situação nos tornam maus ouvintes. Não sei afirmar com certeza o motivo. Mas sei que quando aconselhamos sem ouvir, podemos correr o risco de menosprezar a dor do outro. Podemos levá-lo a se sentir mal e culpado, ao dizer, por exemplo: “você tem uma vida confortável, não tem porque sofrer!”.
É preciso saber respeitar o sofrimento alheio, escutá-lo sem julgamento prévio. Talvez não compreendamos o motivo para tanta angústia (lembro-me de Shakespeare: “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”), mas o que importa é que o outro sinta que a dor dele é válida e que, apesar dela, ele continua querido.
*Dedico este texto àqueles meus amigos que deixaram a minha dor gritar bem alto e me acolheram, cada qual a sua maneira, durante as últimas semanas: Ana Luisa, Cleiton, Guilherme (San), Marcelo(Calunga), Thiago (Ser Humano), Henrique, Ny, Elieni, Keké, Mirian, Luiz Augusto, Danielli, Drausio, Eleusa.

quinta-feira, março 06, 2008

Doa a quem doer!

Em 1975, a Associação Médica Mundial, definiu a tortura como “o sofrimento físico ou mental provocado de forma deliberada, sistemática ou arbitrária por uma ou mais pessoas, que age sozinha ou sob as ordens de qualquer autoridade, para forçar uma outra pessoa a entregar informações, obrigar a confessar, ou para qualquer outra razão” (Declaração de Tóquio, 29ªAssembléia Médica Mundial). Embora falar de tortura nos remeta a crimes contra prisioneiros de guerra e aos anos de chumbo das ditaduras latino-americanas sua prática ainda é bastante usual.
A fim de reagir a esta violência, a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), ligada à Presidência da República pretende criar comitês de luta contra a tortura em nível nacional: ativistas de direitos humanos, do governo e de organizações não governamentais empenhados em combater não só a tortura física como também a psicológica, passarão a monitorar locais de detenção.
Eu não sei até que ponto sou inocente demais, mas até há pouco tempo eu acreditava que a tortura era praticada por aqueles policiais que tem uma vida estressante, como aqueles que trabalham nas favelas atrás de traficantes de drogas (tal como retratou o filme “Tropa de Elite”). E mesmo assim já achava um absurdo o fato da mulher de um traficante ser torturada para entregar o marido. No entanto, recentemente “descobri” que não tão longe como eu supunha, detentos apanham sistematicamente para que confessem todos os crimes praticados (as pancadas não deixam lesões, pois são feitas em locais do corpo estrategicamente calculadas pelos policiais). Além do mais, a tortura psicológica é infringida àqueles que estão ainda na condição de interrogado.
Penso que já passou do momento do governo por em prática o monitoramento dos locais de detenção (teoricamente, as visitas às instituições serão realizadas por um perito do Ministério Público e por profissionais qualificados para identificar a tortura, como médicos, psicólogos, arquitetos, psicólogos e assistentes sociais.). Fiquei atônita quando me disseram que este crime é uma prática comum e institucionalizada. Mas acho inaceitável. Se há uma Lei, que seja cumprida! Se ela é justa ou não, que sejam usados os meios lícitos para modificá-la!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Antes que eu desista

Assisti inúmeras vezes ao filme “Perfume de Mulher”. Não me canso. Além da estonteante atuação de Al Pacino (dá uma imensa vontade de dançar um tango com ele) acompanhada pela atuação também marcante de Chris O’Donnell, a história me comove ao tratar do tema integridade. O que significa ser íntegro? Significa ser justo, incorruptível, honesto, imparcial. Olhando para o mundo hoje, parece-me raro encontrar indivíduos qualificados como tal.
Em Brasília, no Planalto Central, por exemplo, se houvesse uma medida intitulada “densidade de integridade” (por analogia à densidade demográfica) seria baixíssima. Mas não podemos esquecer que os políticos são eleitos por nós... E desta forma, cabe aqui a seguinte provocação: até que ponto eles representam nossos interesses? Não serão eles reflexo de toda a sociedade?
Ser íntegro não é uma tarefa simples. Vivemos num país onde trapacear para se dar bem não é uma atitude necessariamente condenável - a retidão moral não é incentivada na nossa cultura. E se deixarmos a hipocrisia de lado, perceberemos que muitas vezes aprovamos a esperteza (no sentido pejorativo do termo) alheia: não é à toa que novelas e Big Brother (lembram do Alemão?) dão tanta audiência...E mais, se olharmos para nosso próprio umbigo, quantos de nós poderá afirmar com convicção que está ileso totalmente de ter cometido uma atitude injusta? Quantos ao eleger um prefeito ou vereador não o fazem em defesa de interesses pessoais? E quantos filhos não reproduzem a as atitudes desonestas dos pais que os ensinam que status e riqueza são o que realmente importa? É doloroso sentir que para sobreviver e ser valorizado socialmente talvez seja mesmo necessário não ser radicalmente íntegro...
Mas quando eu assisto ao “Perfume de Mulher” eu me encho de esperança. Esperança com relação a mim mesma traduzida numa vontade de buscar sempre o caminho da integridade. Tropeços todos nós cometemos e crescer como pessoa é um realizar constante. Basta não desistir, basta não ceder aos benefícios imediatos. Por tudo isso não esqueço a frase proferida com fervor pelo personagem de Al Pacino (tenente-coronel Slade): “não há nada pior que um espírito amputado, não há prótese para isso!”

quinta-feira, fevereiro 21, 2008


O sonho

Vou contar uma história, uma história sobre um sonho que jamais irei me esquecer. Vamos a ele.
Eu estava chateada com minha vida, achava que faltava brilho, emoção, paixão. De repente, andando pela rua esbarrei-me em algo que não sabia definir se era uma pessoa ou um anjo, mas quando olhei para trás, ele já não estava lá. Assustei mas continuei andando. Sem rumo. E de súbito o “anjo-pessoa” apareceu na minha frente. Olhou-me fixamente. Parecia desvendar minha alma, descobrir meus desejos e me conhecer desde sempre. Percebi que ele era o meu verdadeiro amor! Não tinha como não ser. Eu sentia! Ele nem precisou dizer nada para eu saber. Foi instantâneo! E quando ele falou, ele não falou: ele recitou poesias, as mais doces palavras que eu ouvira até então! Ficamos extasiados! E sem pedir, ele me roubou um beijo. Eu estava próxima ao céu. Foi o beijo mais terno que recebi!
Fizemos muitas promessas, juramos que nunca nos separaríamos. Mas havia um único problema. Ele era um anjo. E como anjo teria que ir embora. Fiquei aflita. Perguntei a ele se não haveria uma forma dele se tornar humano. Ele disse que sim, mas levaria tempo. Ele tinha muitas missões ainda para cumprir e só depois poderia pedir a Deus para torná-lo uma pessoa real. Eu disse que esperaria o tempo que precisasse, pois jamais havia sentido um amor assim. E ele disse que apareceria quando pudesse, pois era impossível ficar tempo demais assim afastado. Ele me visitaria às vezes.
Ele se foi. Fiquei com saudade, mas não me aborreci. Tinha ele no meu coração. Quando nos reencontramos senti que todo seu amor ainda estava ali. Mas com o tempo, eu comecei a sentir angústia. Sentia que ia perdê-lo a qualquer momento. Ele continuou a me visitar, mas vivia preocupado com suas obrigações e não era mais tão afetuoso como antes. Eu perguntava o que estava acontecendo, ele me dizia que nada havia mudado. Porém meu coração não ficava tranqüilo, passei a sofrer.
Então, finalmente, percebi que eu havia acordado há tempos, que meu sonho se acabara na primeira vez que meu anjo se foi. Eu não conseguia suportar a não possibilidade de um amor assim. Eu não queria acreditar que anjos querem voar!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008


Existo, logo mudo!

A cada dia que vivo, vejo que tenho muito a aprender. Surpreendo-me, pois, embora eu nunca tenha deixado se considerar a vida um constante aprendizado, havia aspectos do meu ser que eu julgava não necessitar de mais transformações. Era apenas ilusão: percebi que tenho a tendência de fugir quando a situação exige-me mudar. E com isso notei como é fácil desistir de um objetivo e culpar as circunstâncias por isso. É cômodo e menos doloroso.
Ninguém, gozando de plena sanidade mental, deseja intencionalmente sofrer. E assim recusamos aquilo que nos traz sofrimento. É uma reação natural. No entanto, toda transformação relevante demanda o questionamento de nossas atitudes e valores. E é inevitável que isto traga alguma forma de tormento. E muitas vezes recuamos diante da possibilidade de sofrer, pois quando aspiramos ao bem-estar imediato, o medo cega-nos quanto aos benefícios posteriores.
O curioso, na minha vida, é que o fato de eu ter enfrentado problemas parecidos no passado, deu-me a sensação que eu havia mudado. Mudanças aconteceram sim, mas não profundamente como eu pensara... O ideal seria que toda situação adversa que passamos, tornasse-nos mais habilidosos para resolver questões futuras. Não é o que acontece sempre. Muitas vezes um acontecimento atordoante, ainda que superado, deixa-nos receosos ou arredios, o que nos impede de ver que a situação é apenas aparentemente semelhante. E assim, tornar-se mais fácil desistir antes de tentar.
Enquanto eu escrevo, penso que talvez algo em mim realmente tenha se transformado. Pois hoje, diferentemente de outrora, não só percebo minhas falhas: aceito que preciso mudar. Eu desejo me aperfeiçoar como ser humano. Aprender com o passado em vez de usá-lo como barreira dos meus sonhos. Posso sofrer no início, mas sei que a cada pequena conquista me sentirei mais senhora do meu próprio destino.
Enxergar as amarras do passado e vislumbrar um agir independente dele, penso ser um dos primeiros passos para a conquista da genuína liberdade.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008


Nós e os outros

Em cidades do interior como Barretos vestir-se de forma distinta da maioria é ousadia de poucos. Aqui as pessoas sentem-se mais à vontade quando estão parecidas com as outras, trajando o que está na moda. Já em cidades como São Paulo, ser diferente é a maneira que muitos procuram para se destacar na multidão.
Em São Paulo, somos apenas mais um. Nas ruas, no metrô, nos ônibus, não importa de quem você é filho e nem seu sobrenome. Se por um lado ser um anônimo provoca um certo desamparo, por outro a liberdade perante o olhar do outro é maior: o paulistano está acostumado a ver de tudo...Mas estive na capital no carnaval e, ao observar, sobretudo, os jovens, veio-me a indagação: até que ponto são livres?
De fato, em São Paulo, as pessoas se vestem de maneira bastante diversificada. Entre os jovens, há os góticos, os clubbers, os hippies, os metaleiros etc. No entanto, ao mesmo tempo em que demonstram ser livres para expressar suas preferências, diferenciam-se cada vez mais em busca do olhar do outro. Ou seja, a condição de ser mais um na multidão gera, concomitantemente, a liberdade diante do outro e o desejo de ser notado pelo outro.
É curioso notar que o julgamento do outro é determinante tanto numa cidade como Barretos quanto em São Paulo. No entanto, o efeito é inverso: aqui buscamos uma aparência semelhante. Já os paulistanos são levados a se diferenciar. Aqui sentimos falta de liberdade devido à censura do outro. Em São Paulo, o excesso de liberdade gera, ironicamente, o sentir-se aprisionado pela necessidade de se destacar a fim de obter a atenção do outro.
Ainda que alguns afirmem categoricamente não se importar com quê os outros pensam, acredito que é praticamente impossível se desvencilhar completamente do julgamento alheio. Ainda que para os mais jovens o olhar do outro seja mais determinante, na maturidade continuamos dependentes dele. Mesmo aquele que busca o total isolamento, espera do outro o reconhecimento de seu ato. É da natureza humana, pois somos “o intervalo entre o nosso desejo e aquilo que o desejo dos outros fizeram de nós” (Alberto Caeiro).

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Pensamento livre (?)

Ter opiniões e valores (éticos, morais e religiosos) é uma necessidade natural do ser humano. Integra o processo de constituição de sua personalidade. No entanto, quando as convicções são tomadas como verdade absoluta, o radicalismo toma o lugar da ponderação.
Recentemente li um artigo (de quem não me lembro o nome), na Folha de S. Paulo, que criticava a postura de acadêmicos europeus frente à visita do Papa Bento XVI à Universidade de Roma, da qual são docentes. Os doutores, sob alegação de que o Papa é o “artesão” do atraso cultural e contrário ao pensamento livre, vetaram a sua presença e conseqüente palestra que seria proferida por ele... Se Bento XVI vem se mostrando demasiadamente conservador, os detentores da ciência foram ainda mais radicais, pois qualquer universidade é um espaço para o debate de idéias e contínua construção do saber: rechaçar este processo significa macular seu espírito.

O fanatismo nunca gerou bons frutos: fascismo, nazismo, apartheid... O século passado está manchado devido às atrocidades em nome de verdades consideradas inquestionáveis por aqueles que as defendiam. Mas sabe-se bem que tais absurdos não se restringem ao século XX: barbaridades cometidas na tentativa de impor uma crença (religiosa, política e/ou étnica), foram comuns na história de nossa civilização (por exemplo, a Guerra Santa e a Inquisição).

Diante de tantos modelos negativos, não seria esperado que condutas radicais fossem cada vez mais incomuns? Infelizmente não é o que se vê: ainda que a postura dos acadêmicos romanos não tenha provocado nenhuma catástrofe, é preocupante, pois de pessoas com mais conhecimento espera-se atitudes mais sensatas. No entanto, não precisamos ir longe para enxergamos as conseqüências realmente nefastas do fanatismo: assassinatos cometidos por torcedores de clubes futebolísticos e espancamentos e mortes provocadas por jovens neonazistas são acontecimentos freqüentes no nosso país.

Dizem que a certeza é irmã da loucura. O curioso é que apreciamos mais as certezas do que as dúvidas. A certeza nos dá segurança. A dúvida nos atormenta. Mas defronte de tantos absurdos, prefiro nada afirmar...

quinta-feira, janeiro 24, 2008


Nos olhos de quem vê

Dias atrás, assisti pela primeira vez a um programa no canal Futura chamado “Não é o que parece”. Cada semana o programa aborda um tema e nesta ocasião o assunto era “Beleza”. De forma bastante dinâmica e recheada de depoimentos, tanto de pessoas comuns quanto de especialistas, foi discutido se o que é considerado belo depende do julgamento de cada pessoa ou se existe realmente um modelo de beleza universal.
Entre tantos depoimentos, o de uma garota de apenas 11 anos chamou bastante a minha atenção. Ela mostrou seu trabalho de escola que, através de ilustrações feitas por ela mesma, mostrava que o padrão “Barbie” é uma ilusão. Enquanto exibia seus desenhos, ela dizia que ninguém jamais será como a Barbie e que fantasiar é necessário, mas que não se deve esquecer a realidade. Outra colocação que achei bastante relevante foi a de uma psicóloga. Segundo ela, o padrão de beleza feminina atual é o da top model Gisele Bündchen e poucas pessoas conseguem atingi-lo. Ela enfatiza que é preciso modificar este padrão, pois não alcançá-lo tem gerado muito sofrimento: um padrão de beleza deveria abranger a maioria e não uma minoria.
Quem determina um padrão de beleza? Na Renascença, o exemplo de beleza era totalmente diferente. De forma bastante humorada, o programa mostrou que as mulheres retratadas naquela época teriam que fazer inúmeras “lipos” e os mais diversos tratamentos para se enquadrarem no padrão atual. Mas não é preciso voltar tanto tempo assim: em vinte anos, o modelo de beleza se modificou bastante. É difícil dizer se é a maioria que, de forma espontânea, elege um padrão, ou seja, se há um consenso e por isto este padrão se sobressai ou se este padrão é imposto pela mídia, incessantemente, de maneira a se tornar temporariamente universal. É mais provável que seja uma via de mão dupla: a mídia apresenta a “bola da vez” e testa a adesão do grande público. Quando a maioria aprova, surge um novo modelo.
Mas ainda que apreciemos as beldades da televisão, do cinema e das passarelas, nossas escolhas pessoais, na maioria das vezes, não obedecem a estes critérios: o que nós achamos belo é subjetivo e, no mundo real, a beleza interior é deveras importante!

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Petrificando

Às vezes é penoso me sensibilizar com o que acontece ao me redor. Eu já não assisto TV para não ficar sobrecarregada (não que a TV me afete tanto, mas fico imaginando milhões de crianças assistindo a novela das “oito” e, agora, o Big Brother...). No entanto, vejo preconceito, intolerância e egoísmo no dia-dia. Basta acordar.
Não sou o tipo de pessoa que costuma discutir ao presenciar uma injustiça. Já fui assim e percebi que não vale a pena: algumas pessoas consideram as próprias verdades absolutas e indagá-las é como socar uma parede de concreto... Além disso, questionar o que já é um hábito pode te tornar mal quisto no grupo. Mas não posso tapar meus ouvidos. Escuto disparates que, mesmo não sendo dirigidos a mim, doem. Sartre, um filósofo francês, dizia que ao escolher o tipo de ser humano que você deseja ser, você escolhe a humanidade a qual pertencerá. Deve ser por esta razão que me choco: não é esta a humanidade que escolhi.
Tenho estado serena. Afinal, para que me incomodar enquanto quase ninguém se importa? O ofendido reage como o ofensor. Olho por olho, dente por dente. Porém, se observo atentamente, vejo que o ofendido não tem outra opção: ele cresceu ouvindo exatamente as mesmas asneiras. Devolvê-las à altura foi a forma de se defender aprendida por ele. É compreensível. Mas percebo que quando o ofendido encontra alguém que, por outra particularidade, pode ser mais destratado que ele, ele age como seus ofensores, ainda que este outro alguém não tenha lhe ofendido. E todos aprovam, todos riem. E eu ameaço um sorriso a contragosto. Eu não falo mais. Penso e sinto.
Pode ser apenas brincadeira. Posso estar exagerando. Mas ao me colocar no lugar do ofendido, sinto dor. O que me preocupa é que este desconforto tem passado cada vez mais rápido. Sinto-me pressionada a fazer parte da “diversão”. Confesso que às vezes tento, mas, para mim, é inadmissível brincar pejorativamente com alguém sabendo que no fundo aquilo lhe causa sofrimento. Não sou santa, já fiz algo do tipo e me arrependi.
Temo perder meu coração. Temo que esta humanidade me escolha.

quinta-feira, janeiro 10, 2008


Relação a dois

Ontem eu estava conversando com um amigo através da internet e ele estava se perguntando se o maior problema dos seres humanos são os relacionamentos amorosos.. Idealmente, um relacionamento amoroso nos deveria trazer, sobretudo, contentamento, mas nem tudo são flores.
Às vezes esperamos encontrar a pessoa dos nossos sonhos. Como num passe de mágica, aparece alguém que preenche todos os nossos requisitos. Projetamos nela tudo que desejamos, vemos nela a perfeição. Todos que se apaixonam passam por isso. Com o tempo, a pessoa verdadeira vai aparecendo. Isto pode levar semanas ou anos. Mas um dia não estaremos mais diante de um ideal e sim de alguém de carne e osso. E talvez seja esta a grande encruzilhada dos relacionamentos. Refletimos: amo esta pessoa que está à minha frente, esta pessoa que carrega uma história? Ter esta pessoa ao meu lado significa não mais contemplá-la, é preciso acolher suas fraquezas, é preciso tirá-la do pedestal! Estou disposto a amar?
Muitos casais se acertam, pois muitos vivem juntos por anos. Dividir alegrias, angústias e fazer renúncias aprende-se a dois e pequenos conflitos são inevitáveis. Mas a grande assombração da maioria dos relacionamentos é a infidelidade. Pode ser que há casos que uma traição se justifique, mas depois de feito não importa mais. A questão é: é possível perdoar uma traição? Bom, alguém falaria: depende. Particularmente, eu penso que se a traição não alterar o relacionamento, se a pessoa enganada conseguir aceitar a outra de volta, sem guardar rancor e tendo a confiança que isto não se repetirá, é possível perdoar (mas talvez isto não passe de uma idealização minha, talvez a relação jamais volte a ser a mesma...).
No entanto, existem outras formas de deslealdade. Podemos ser desleal quando dizemos o que não sentimos. Às vezes achamos que sentimos, às vezes não temos certeza mesmo, mas é preferível não dizer caso tenhamos dúvida. A palavra tem um poder imensurável e pode modificar a vida de quem a escuta... Não sei dizer se os relacionamentos amorosos são o nosso maior problema, mas acredito que amar e se permitir ser amado é uma dádiva que não deveríamos menosprezar.

domingo, janeiro 06, 2008


Em família

Cada um vive à sua maneira, mas temos necessidades em comum. Precisamos de uma referência para viver, assim precisamos amar um outro. Precisamos realizar algo que dê sentido à nossa existência, assim precisamos de um sonho. Precisamos trabalhar, precisamos ter amigos... Precisamos, sobretudo, de nossa família!
Outro dia recebi um e-mail que falava sobre o significado da palavra família. Não sei ao certo a veracidade desta informação, mas vale a pena registrar aqui. Família vem do inglês Family, onde cada letra, supostamente, é a abreviação de uma palavra: Father (pai) And(e) Mother(mãe) I (eu) Love (amo) You (vocês)....Este o núcleo familiar. É nossa base. E amor é o que esperamos encontrar entre pais e filhos: não há nada mais lamentável do que uma família onde não há amor.
Mas entendemos como família não apenas os pais: há os avós, irmãos, primos, tios etc. Minha família é bastante numerosa (eu não saberia dizer quantos parentes tenho atualmente e muito menos afirmar conhecer todos eles). Este ano escolhi passar o reveillon na casa de minha madrinha. Nunca tinha ido lá nesta ocasião. Fiquei longe de meus pais, irmãos e sobrinhos, mas em compensação encontrei pessoas que há muito tempo não via: tios-avós e primos de segundo e terceiro graus. E o mais importante: fiz amizade com primas que antes eram apenas parentes praticamente desconhecidos. Não fizemos nada de extraordinário: na noite da virada cantamos no videokê - até quem era contra ligá-lo durante a festa, rendeu-se à cantoria. Foi divertidíssimo: três gerações presentes e todos soltando a voz.
Creio que em toda família é possível encontrar vários tipos de pessoas. Há os rebeldes, os intelectuais, os engraçados, os mal-humorados, os tranqüilos, os agitados, os vegetarianos, os que ingerem bebida alcoólica e os que não o fazem, os que falam muito e os que preferem ser ouvintes, os que são exímios cantores e os extremamente desafinados, os politicamente engajados e os que estão “por fora”. Onde eu estava, havia vários exemplares de cada um destes tipos. E mesmo com toda a diferença, a harmonia prevaleceu.
Por mais amigos que tenhamos, por mais calorosos que sejam, penso que nada se compara à família. Podemos estar distante de algum parente, podemos até não concordamos com suas idéias e atitudes, mas o respeitaremos simplesmente por fazer parte da família e sabemos que, se um dia for preciso, ele nos estenderá a mão. Entre parentes costuma haver um laço invisível aos olhos, mas não ao coração.

quinta-feira, dezembro 27, 2007


Magia de Ano Novo

Fim de ano. Alguns dizem que acontecerá apenas uma mudança no calendário. Mas, ainda que a “virada” seja apenas simbólica, os momentos que a antecedem costumam influenciar nosso emocional. Tornamo-nos mais reflexivos. É o momento em que pensamos sobre nossas conquistas. E, inevitavelmente, é o momento de relembramos as perdas também, seja qual for a natureza delas.
Todo “fim” carrega em si mesmo um sentimento de perda. O fim de um dia, por exemplo. Quem nunca se aborreceu consigo mesmo por não ter realizado o que planejou para determinado dia? Então não é de se estranhar que sintamos certa tristeza neste período: a virada do ano evidencia o tempo ocorrido. Por outro lado, assim como o amanhã, o novo ano representa um recomeço.
Talvez seja este o período que mais nos permitimos sonhar. Talvez a grande magia que envolve a virada de ano se explique justamente por isso. Fazemos promessas. Selamos acordos com nós mesmos. Achamos que tudo pode ser diferente. Pode ser que façamos os mesmo planos que não realizamos no último ano. Pode ser alguns projetos fiquem apenas na nossa imaginação. Mas o importante é acreditar, pois, se partimos do princípio que algo não é possível, não lutamos por ele (e, se ao buscarmos um sonho, decepcionarmo-nos no final, estaremos em paz com nós mesmos simplesmente pelo fato de esforçarmo-nos para que ele acontecesse).
Eu tenho um sonho. Um sonho antigo. Porém, sua realização, infelizmente, não depende só de mim: eu gostaria que toda pessoa, ao encontrar qualquer outra na rua, no trabalho, sorrisse e falasse bom dia (lembram-se do filme “Patch Adams – o Amor é Contagioso” ?). È impressionante o poder de um sorriso! Além disso, eu gostaria que as pessoas não se evitassem tanto, que elas se permitissem dar e receber carinho, seja com uma palavra, seja com o toque (agora me vem à mente outro filme: Crash – no Limite. Parafraseando, um dos personagens presume que a falta de toque faz com que as pessoas batem uma nas outras só para sentir alguma coisa).
Seja qual forem os projetos de cada um para o próximo ano, acredito que se buscado com amor e entrega, já estará um tanto realizado. O que importa é o caminho...

quarta-feira, dezembro 12, 2007


Roda-gigante

Não por acaso gosto de observar o que há de comum nos seres humanos. Converso com amigos (virtuais ou não), vejo filmes e olho para mim mesma...Nos últimos tempos, o que tem me chamado atenção é a nossa necessidade de ter a vida sob controle. Temos que programar nosso dia seguinte, por exemplo. Às vezes precisamos estabelecer nossas atividades durante a semana e até mesmo durante o mês inteiro: é natural, pois a correria do cotidiano nos obriga a isso... Mas não é só o que é exterior a nós que desejamos controlar: ansiamos, sobretudo, controlar nós mesmos (penso que deixar organizado “lá fora” nos dá a sensação que por dentro está tudo no lugar).
Pouco nos arriscamos! Procuramos ser o que sempre fomos. Se uma situação exige mudar nossas crenças, sentimentos e atitudes, geralmente preferimos evitá-la ou então adaptá-las ao que já conhecemos. Somos capazes, por exemplo, de passar por uma grande decepção amorosa e corajosamente encarar um novo relacionamento. Porém, muitos agem com o novo parceiro da mesma forma que fazia com o antigo, por mais diferente que este seja...
Temos, inconscientemente ou não, a necessidade de manter o mesmo padrão, pois isto nos dá impressão de que nada fugirá do nosso controle. O que parece bastante paradoxal: apesar da consciência que temos dos nossos erros, não conseguimos ser diferentes. Mas não é tão contraditório se levarmos em conta que é mais seguro agir como sempre agimos, pois mesmo que venhamos a nos decepcionar novamente, já saberemos como cuidar disso. Por mais estranho que isto possa parecer, geralmente escolhemos uma vida sem tempero em vez de buscar uma felicidade desconhecida. Uma amiga, ironizando o próprio modo de se comportar, metaforizou: “eu estou numa roda gigante, chega a hora de descer e eu não quero!”. É bastante ilustrativo: andamos em círculos, conhecemos bem o caminho, mantemos o controle.
Independente de nossa vontade, o imprevisível acontece. Seja uma dádiva, seja um infortúnio. Das dádivas é mais fácil escapar, esquecê-las, voltar ao cotidiano. Já os infortúnios, temos que enfrentá-los. Sofremos, querendo ou não. E sofrer nos faz crescer porque nos obriga a mudar. Porém, estacionar-se nesta mudança, negar que as situações e as pessoas são outras, pode até garantir o controle, mas limita a infinita possibilidade do viver.

quarta-feira, dezembro 05, 2007


O Paraíso pode ser os outros!

Para qualquer pessoa, Andradina pode ser uma cidade do interior paulista sem muitos atrativos. Mas é um lugar cada vez mais especial para mim. Fui para lá na semana passada. Saí daqui na quarta-feira. Dei-me o privilégio de adiantar meu fim de semana porque no dia seguinte era aniversário de minha prima: 16 aninhos. Eu queria estar lá. Além disso, ela pediu a minha presença, e por ela, eu faço tudo! Foi uma longa viagem de ônibus, embalada pelas canções que eu ouvia no MP3 (não me importo tanto com percursos demorados: o movimento, a estrada e as estrelas levam-me a refletir). Fui até Araçatuba e lá encontrei minha tia e minha prima. Seguimos de carro até Andradina. Da janela do Gol eu vislumbrava um céu indescritível!
Dia do Aniversário: minha tia foi trabalhar e deixou o carro para eu levar minha prima e a amiga dela para almoçar no shopping. Meu primo de 18 anos, irmão dela, não foi porque era um almoço de meninas. O pequeno caminho até lá proporcionou boas gargalhadas. Lá encontramos outras amigas. No início fiquei me sentindo uma tanto deslocada no meio de tantas adolescentes, mas como é de costume logo encontrei pontos em comum. Almoçamos do restaurante chinês (eu e minha priminha somos fãs). Tiramos fotos, fizemos pose! Na volta descobri que existem valetas piores que as de Barretos...Mas com muito cuidado consegui devolver o carro ileso (apesar de alguns sustos e mais risadas).
Os dias passavam rápido. Sempre tem amigos e amigas na casa dos meus primos. Todos se sentem muito à vontade. Joguei futebol no Playstation, li, papeei com o pessoal até altas horas...Sábado minha tia nos levou até Três Lagoas: belíssimas paisagens e um pôr-do-sol maravilhoso! Mais tarde, duas da madrugada, estava conversando com meus primos e dois amigos, quando um outro amigo chegou de carro. Meu primo não hesitou: “Vamos à porteira? Minha prima vai embora amanhã e ela não conhece...” . Fomos. Mais um céu extraordinário! Vi cinco estrelas cadentes! Ninguém bebia. Debatemos sobre Hitler e a Segunda Guerra, mas também rimos demais com imitações de besteiras da net...
Cada vez mais a vida me mostra que quando estamos ao lado de pessoas que nos fazem rir, pensar e emocionar, não é preciso grandiosidade. Pessoas assim valorizam um pôr-do-sol, levam-nos para ver estrelas cadentes e sabem dosar graça e siso na medida certa!

quarta-feira, novembro 28, 2007


O Império do poder
Dias atrás achei um jornal de outubro deste ano. Às vezes guardo o Caderno “Mais” da Folha para ler depois, mas havia esquecido deste. Folheei-o, mas a princípio não achei nada que me chamasse tanta atenção. No entanto, sobrava-me tempo: li um artigo do psicanalista Renato Mezan, intitulado “Prazeres Expressos”, sobre o ensaio fotográfico de Mônica Veloso e a polêmica em torno do roubo do Rolex do apresentador Luciano Huck. Quando li o subtítulo, estranhei: que relação poderia ter estes dois acontecimentos, além da incessante exposição pela mídia? Mas Mezan surpreende sempre: além de renomado psicanalista é um excelente escritor. Não tenho mais o artigo em mãos...O que apresento a partir de agora é resultado da memória que tenho da leitura das palavras de Mezan embaralhadas com minhas próprias convicções.
O que representa um Rolex? Ter um relógio deste significa que você pertence a um grupo seleto (Mezan conta que quando os relógios de bolso surgiram, as pessoas compravam coletivamente e revezavam o uso. Quem não estava usando, colocava apenas uma corrente para fora do bolso para simular a posse do relógio).É sinônimo de status e, conseqüentemente, poder. Atualmente, caminhar em São Paulo com um Rolex no punho é pedir para ser assaltado. E roubá-lo pode significar uma tentativa de se aproximar dos privilegiados e/ou uma reação à imensa desigualdade social: agir violentamente seria uma forma de compensar a miséria e ainda demonstrar quem é que detém a força.
E o ensaio fotográfico de Mônica Veloso? As fotos dela na “Playboy” causou frisson nos brasileiros (parlamentares foram flagrados “saboreando” a revista). Mezan aponta que muitas beldades já pousaram nuas, mas poucas tiveram o mesmo efeito. Qual a diferença? Segundo Mezan, ao olhar a jornalista em fotos tão íntimas, o público masculino se identifica com Renan Calheiros (coloca-se no lugar dele) e, inconscientemente, deseja desfrutar não só Mônica Veloso, mas todos os benefícios que ele possui.
Aparentemente distintos, os dois acontecimentos retratam o gosto pelo poder. Quem tem um Rolex exibe o poder. Quem o rouba deseja o poder e/ou demonstra do lado de quem ele está. Já no último caso, o anseio pelo poder (inclusive a vantagem de estar acima da lei) revela-se no olhar embasbacado de milhões de brasileiros diante da nudez de Mônica Veloso.

quinta-feira, novembro 22, 2007


Além da Tropa

“Tropa de Elite”, o filme brasileiro que vem batendo recordes de bilheteria, tem suscitado polêmicas. De um lado, estão aqueles que aplaudem a obra do diretor José Padilha principalmente por ela retratar com suposta fidelidade o caos existente nas favelas cariocas e a atuação do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). De outro, os que a julgam como enviesada: o diretor, ao escolher o policial do BOPE como narrador, legitima, implicitamente, a violência empreendida pelo Batalhão. Estou de acordo com estes últimos.
O cinema é formador de opiniões. Certamente há casos em que o filme apenas reforça uma idéia já existente. Mas, ao ser visto por crianças e adolescentes, “Tropa de Elite” funciona como modelo de solução da violência urbana: ouvi adolescentes falarem com empolgação sobre as ações do policial-narrador Capitão Nascimento. Concordam plenamente com a tortura empreendida por ele e seus parceiros. Para eles, a mulher do traficante é culpada por casar-se com bandido e o menino torturado mereceu, pois avisava os traficantes quando a polícia entrava no morro. (Em tempo: a censura nas salas de cinema é de 16 anos, mas o filme, pirateado antes mesmo de estrear, chegou a ser exibido numa escola para meninos e meninas de 12 anos; além disso, os adolescentes a que me referi têm entre 13 e 14 anos).
Realmente o tráfico de drogas e todas as conseqüências geradas por ele são um dos maiores problemas da atualidade. No entanto, a meu ver, a repressão policial, quando desacompanhada de ações pró-sociais, apenas gera uma guerra interminável. Pois, enquanto houver consumo, o tráfico permanecerá (neste sentido, as ações do BOPE de nada resolvem). Assim, a melhor forma de combater o comércio de drogas é cessar a demanda. E para isto é preciso educar, sobretudo, as crianças e os adolescentes (não estou aludindo somente à educação escolar. Remeto-me principalmente aos valores, atitudes e afeto transmitidos pelos pais) Portanto, ao esperamos que a polícia resolva completamente a questão do tráfico, estamos esquecendo de nosso papel na prevenção do abuso de drogas.
Penso que “Tropa de Elite”, em vez de retratar a realidade, mostra uma visão maniqueísta da mesma: o bem versus o mal (nada muito diferente dos filmes de ação hollywoodianos) Pelo sucesso alcançado parece, infelizmente, satisfazer o desejo da maioria dos brasileiros: “bandido bom é bandido morto”.

quarta-feira, novembro 14, 2007


Fotografias de papel

Seu nome: Lena. Estava agora com 33 anos. Sentia-se plena, realizada! Havia conquistado quase tudo que almejara: um amor perfeito, um bebê que estava por vir e um trabalho recompensador. Não tinha muitas ambições, tinha sonhos. Gostaria de viajar pela Europa, conhecer Londres, Paris, Lisboa, Barcelona, Berlim, Veneza etc. Mas ela não tinha pressa, pois sua vida estava tão sublime que ela era incapaz de se sentir frustrada!
Num domingo de frio, estando sozinha e sem muito para fazer, Lena resolveu “viajar” pelo passado. Foi até o armário e pegou o baú antigo onde guarda fotografias. As fotos mais recentes são de quase dez anos atrás, pois depois que ela comprou uma máquina digital, esqueceu-se de sua velha companheira Fuji. O primeiro álbum visto foi o de sua adolescência, “15 aninhos” – deduziu ela. Havia várias imagens de Lena com Melissa, amiga desde a infância. Enquanto olhava, ela rememorava aqueles momentos: elas gostavam de aparentar revolta! E de fato acabaram se tornando “rebeldes”. Lena ria ao lembrar daquela época, de toda aquela ingenuidade e inquietude.
Depois achou fotos de sua infância. Lena ficou tentando desvendar o que ela, aquela garotinha de três aninhos, pensava. Era difícil saber. Ela lembrava-se até de quando seu irmãozinho mais novo nasceu. Mas de seus pensamentos (do que ela achava do mundo) não! Ficou curiosa. Achou uma foto em que ela estava debruçada na penteadeira olhando para o espelho. Lena recordou-se que adorava fazer isso - ficar se olhando no espelho - mas ainda assim não sabia o motivo. Talvez apenas se admirasse, talvez buscasse uma resposta. Então Lena pensou, rindo de si mesma: “Deveria ter estudado psicologia em vez de letras”. E continuou “Pessoas me deixam intrigada, o meu próprio”Eu” me deixa perplexa!” Mas logo se encontrou: “Prefiro escrever, gosto de desvendar o ser humano intuitivamente”.
Passou pelas fotos da faculdade, aniversários, viagens inesquecíveis! Notou que a simplicidade sempre a fizera feliz: cachoeira, mar, amigos reunidos. Viu amores antigos e recordou-se, carinhosamente, dos bons momentos. Mas em nenhum momento, inclusive quando ela abriu o álbum da adolescência, desejou voltar no tempo. Lena vivia intensamente o presente, apreciava como nunca a sua vida! De súbito, foi desperta da “viagem”. Barulho na porta. Era o seu amor chegando...

quinta-feira, novembro 08, 2007


Aos nossos pais

Tornou-se senso comum culpar pai e mãe pelos deslizes dos filhos. A responsabilidade pelas atitudes de uma criança pode até ser atribuída aos pais, mas ainda assim não é possível generalizar, pois eles não têm controle, por exemplo, do que acontece na escola (estudar numa escola bem conceituada não garante que a criança aprenderá somente boas ações). Já o adolescente, mesmo tendo recebido uma educação baseada em valores éticos e nobres, pode se desviar, pois é típico desta época ser suscetível à influência dos amigos (mas também é verdade que quanto mais sólida e coerente tenha sido a educação transmitida pelos pais, maiores as chances do filho adolescente identificar-se com pessoas que tenham valores semelhantes aos seus). Porém, a meu ver, culpar os pais pelos erros de um filho já adulto é ignorar o livre-arbítrio intrínseco ao ser humano desta faixa etária.
Jean Paul Sartre, filósofo francês, frisou: “Não importa o que fizeram de nós, e sim o que fizemos com o que fizeram de nós”. O adulto tem a capacidade de discernir entre o certo e o errado, mesmo tendo recebido ensinamentos falhos. Chega um momento em que ele pode escolher o que será. Ele tem liberdade para isso. Certamente mudar o rumo não é fácil. Muitas vezes é mais cômodo deixar a vida nos levar do que tomar as rédeas. Como somos livres, podemos sim escolher o caminho que nos exige menos esforço, menos questionamento interior. No entanto, ao decidir por isto é necessário que nos responsabilizemos por nossas ações, o que significa que devemos ter ao menos a dignidade de não culpar os pais pelos nossos infortúnios.
É importante ressaltar: há adultos que nunca foram crianças e não aprenderam o que é escolher. Jamais tiveram liberdade! Destaco aqui aqueles que cresceram numa favela e desde pequenos pegam em armas ou os que nasceram durante uma guerra civil na Europa, na Ásia ou na África, sendo impelidos, ainda na infância, a integrar um exército. Alguns, surpreendentemente, conseguem se livrar do que está praticamente determinado, mas a maioria sucumbe ao meio, condenados a viver o que não optaram.
Entretanto, muitos de nós, adultos que têm a oportunidade de gerir a própria vida, preferem se lamentar pelo que os pais fizeram ou deixaram de fazer. Vivem do passado esquecendo-se que enquanto o coração bater é possível mudar, transformar-se, transcender!

terça-feira, outubro 30, 2007


Confessionário

Ultimamente, tenho estado “zen” É preciso muito para me deixar irada! Mas claro que algumas atitudes alheias deixam-me incomodada, pois faz tempo que não sou uma voz emudecida. No vôlei, por exemplo, não aceito que uma menina ou menino fique excluído das jogadas porque não sabe jogar bem e erra. Se está ali, tem direito de participar! Porém, não discuto mais, apenas falo...
Tenho permanecido mais em casa. Aos meus olhos, a vida parece estar mais simples: não estou mais remoendo pensamentos dolorosos. E também não me preocupa muito a forma como os outros me vêem. Sim, gosto de ser querida. Todos se sentem bem quando são bem aceitos. Mas isto não é mais crucial em minha vida. Concedo-me mais liberdade para falar o que penso. Tento ao máximo não ferir, por outro lado, não deixo mais que me magoem facilmente.
Tenho novas amigas. Antes, por presunção minha, achei que não me daria bem com elas. Mas quando tenho a oportunidade de encontrá-las, vejo que cada uma é especial à sua maneira. Falando em amiga, sinto-me em falta com duas amigas antigas, mas como me conhecem bem, sei que compreendem minha ausência. E ganhei uma amiga que sempre esteve ao meu lado, mas parecia bem distante, minha querida irmã!
Aprendi a perdoar! Isto é fantástico! O coração fica leve....Quase flutua! Perdoar, na minha opinião é uma das melhores sensações que o ser humano pode sentir. Não adianta ser da boca para fora. Talvez seja preciso se esforçar, refletir, superar o orgulho, mas precisa ser verdadeiro. E quando é assim, não é necessário a quem te magoou te pedir desculpas. O teu coração exige isso, pois é ele que está sofrendo.
Minha mãe diz que eu mudei depois de beber a água benta dela por acaso. Ela diz que fiquei “mansinha” (sou um tanto cética quanto a isso, mas é até engraçado). Porém, a parte ruim de sentir esta tranqüila felicidade é, egoisticamente, não dar ouvidos às pessoas que se queixam muito da vida (logo eu que reclamava apenas por reclamar).
Certamente, alguns acontecimentos particulares, que não caberia dizer aqui, ocorreram. Mas eu já passei por várias mudanças repentinas e nunca me senti como agora. Suspeito que minha leveza venha de algo que não se explica com palavras...

terça-feira, outubro 23, 2007


Triste ficção cotidiana

Felipe nasceu na favela. Tinha cinco irmãos. Nunca conheceu o pai. A mãe era doméstica numa casa de “bacana”. Por isso, Felipe ganhou um Nike usado quando tinha 7 anos. Com ele subia e descia o morro para ir à escola depois do almoço. Teve dificuldades para aprender a ler e a escrever. A professora achava-o preguiçoso. Até que um dia, ela o chamou até a lousa. O menino tremia tanto que quase se molhou. Então ela perguntou rispidamente: “Que letra é esta?”. Felipe quase encostou o nariz na lousa e disse “D”. Finalmente a professora compreendeu que ele precisava de óculos e não conteve as lágrimas.
Trabalhando também aos domingos, a mãe de Felipe conseguiu comprar os óculos. No fim do primeiro ano escolar, Felipe lia tudo. A professora tinha orgulho dele! Mas havia dias que Felipe ficava bastante distraído no início da aula. Suspeitando que ele sofresse de déficit de atenção, a professora perguntou se ele não conseguia se concentrar. Encabulado, ele respondeu: “Tem dias que na minha casa não tem comida para todos. Às vezes um ou dois precisa ficar sem arroz-e-feijão. Então, eu venho sem almoçar, minha barriga dói. Mas depois da sopa do recreio, fica tudo bem!”. Mais uma vez a professora chorou...
Voltando um dia para casa, feliz por ter terminado a quarta série, Felipe foi de súbito abordado: “Hei mano, tênis de playboy, hein?” Era um rapaz jovem, 17 anos talvez. Apontou um canivete e completou “Faz uma correria prá mim que eu não levo ele!”. Felipe, tendo crescido ali, pressentiu encrenca. Mas sabia também que se não fizesse o que o rapaz estava lhe ordenando, mesmo ficando sem o tênis, ficaria marcado na favela. “O que preciso fazer?”, indagou Felipe. O rapaz explicou: “Tenho um encontro com minha mina aqui e agora, então vá até o barraco azul, o último, é só subir, não tem erro. Fala pro Nandão que é bagulho pro Batista. Toma a grana. Corre!”.Felipe teve medo, mas não tinha outra saída.
Ofegante, encontrou Nandão na porta. Felipe já foi logo dizendo o porquê de estar ali. O homem, branco e malhado, apenas acenou com a cabeça e buscou a encomenda. Entregou o pacote a Felipe, dizendo: “Some, pivete!”. Felipe descia rapidamente, quando ouviu tiros. Era o BOPE procurando Nandão. Assustado, o menino tentou se esconder. Mas os “homens de preto” estavam furiosos. Uma bala certeira atingiu o coração de Felipe: era apenas uma criança cuja desventura foi ter nascido ali.

terça-feira, outubro 16, 2007


Por uma Princesa!

Num Reino Encantado, conhecido só por aqueles de almas puras, nasceu há 16 anos uma bela princesa, Iris. Na época, ela já tinha um irmãozinho, três anos mais velho, Jonas. A princesinha e o principezinho cresceram em meio a animais e flores de todas as espécies. A Rainha, Ada, muito boa mãe, deixava os pimpolhos desfrutarem as belezas do Reino, mas sempre atenta para os perigos...Era a mais nova de muitos irmãos e irmãs e a Princesa Íris, entre todos os netos, era a caçula, mas infelizmente teve pouco tempo para aproveitar a presença dos avós maternos Ruben e Hanna, pois ambos faleceram quando ela tinha quase quatro anos.
Na adolescência, Príncipe Jonas passou a se vestir de preto com estampas cadavéricas. Aos poucos, ele e a Princesa Íris fizeram amigos na vizinhança. Alguns gostavam de vestir-se de preto também e tocar uma música barulhenta. Algumas irmãs da Rainha alertaram que os trajes e as músicas destes amigos poderia ser sinal de perigo. Mas a sábia Ada não deu ouvidos: trouxe a turma para o castelo e permitiu que eles tocassem as canções “amaldiçoadas”. Com os príncipes e todos amigos por perto, Ada percebeu que não havia nada de mal na diversão deles.
Íris gostava bastante de escrever. Às vezes, saía solitária e subia numa árvore com seu caderninho em mãos. Romântica, contemplava a natureza e poetizava sobre o amor. Mas, certo dia, uma cobra traiçoeira picou a princesa e ela desfaleceu. Quando Ada a encontrou, chamou o Xamã imediatamente. As palavras dele chocaram todos: Íris estava muito doente e só com muitas doses de amor poderia livrar-se do pior...Todos se entreolharam e exclamaram: “Mas nós a amamos tanto! Como lhes daremos mais amor?”
A partir de então, toda a enorme família, amigos, Rainha Ada e Príncipe Jonas puseram-se a refletir. Repensaram suas ações, suas palavras, seus gestos e suas exigências em relação à princesa. Sim, a amavam, mas não demonstravam explicitamente este amor. Não por descaso, mas porque simplesmente achavam que não era preciso. Compreenderam o que o Xamã disse e passaram a cercar Íris com todo amor que o ser humano é capaz. Não demorou a reação da princesa. E quando ela se restabeleceu por completo, o Reino nunca mais foi o mesmo: ninguém mais tinha medo de dizer “Eu te amo” e de, principalmente, oferecer amor.

quarta-feira, outubro 10, 2007


Dia das Crianças

Lembro-me, quando criança, esperava com ansiedade por esta data. Pois na minha família era assim: ganhávamos presentes no Natal, aniversário e Dia das Crianças. Não adiantava fazer birra ao ver a última Barbie nas lojas ou propaganda. Eu teria que esperar a próxima data comemorativa. Além disso, o presente do Dia das Crianças era de menos valor monetário do que o do Natal ou de Aniversário. Eu recordo-me que ficava irada quando muitas amigas ganhavam presentes fora destas datas e eu não. Mas hoje em dia agradeço a meus pais. Aprendi a me divertir com o brinquedo que tinha e conservá-lo. Aprendi também a brincar na rua, construir barracas, jogar peteca e apertar companhias.
Hoje em dia, criança não pede brinquedo para os pais. Pede um celular, um IPOD, ou uma imitação de notebook. Criança não brinca de casinha, criança não brinca na rua. Criança gosta de games e computador. Criança deixa de ser criança aos dez anos. Criança, apesar de existir danças infantis, prefere os “Rebeldes” ou “Latino”. Criança ganha brinquedo a todo o momento, seja dos pais, avós, padrinhos etc. Ela não sabe o valor de um presente. Criança assiste à novela das 21h e ao Big Brother.
Obviamente nem todas as crianças são assim. Mas é o que eu observo no geral e me entristeço. Crianças cujos pais têm um poder aquisitivo suficiente para lhes dar a melhor educação, cultura e caráter, mas se acomodam para não precisar dizer NÃO!
No outro extremo, temos crianças em abrigos esperando pelo Dia das Crianças. Mas será que brinquedos simples as deixarão contentes? Elas também vêem televisão: querem um vídeo-game de última geração... E as crianças das favelas? O polícia-e-ladrão é real. Os brinquedos são armas de fogo e os lugares que elas se escondem existem para avisar o traficante que a polícia está no morro.
Não vejo motivo para se comemorar o Dia das Crianças. Não há como negar que é uma data apenas para o comércio faturar. Esquecem até que o feriado deve-se a Nossa Senhora Aparecida. Mas ainda sonho que um dia celebraremos com dignidade, seja no dia 12 ou qualquer outra data, o dia em que nossas crianças voltarão a ser de fato crianças, cheias de imaginação e espontaneidade.

terça-feira, outubro 02, 2007



O mito do amor romântico

Há poucos dias encerrei a leitura de “Tristão e Isolda – Lenda Medieval Celta de Amor”. Não se sabe ao certo sua origem, mas a lenda inspirou diversas obras literárias da Idade Média e tornou-se uma das mais famosas óperas do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Já havia tido contato com esta fábula através de outro livro que a usava como metáfora – “We: A Chave da Psicologia do Amor Romântico”, de Robert A.Johnson.
Resumidamente, “Tristão e Isolda” narra a história do amor trágico dos personagens título: Tristão, o mais valente dos cavaleiros, é incumbido de buscar a mais bela das mulheres, Isolada a Loura, para se casar com o tio, Rei Marcos. Porém, após enfrentar um dragão e conquistar o direito de levá-la para o Rei, Tristão ingere por engano, acompanhado de Isolda, um vinho contendo a poção mágica do amor. A partir deste momento, Tristão e Isolda passam a amar-se desesperadamente, sendo condenados a uma vida de desventuras...
Ao conhecer a lenda, lembrei-me de “We” (mas não posso garantir ao leitor que minhas próximas colocações são fiéis a esta obra, pois a li há bastante tempo...). Na vida real, não há poção mágica. Porém, quando nos apaixonamos a química cerebral é modificada e somos tomados por sensações extraordinárias: o dia brilha mais, o coração palpita e nosso semblante sorri por inteiro. A vida parece ter sentido apenas junto do(a) amado(a)...
Apaixonar-se é natural. Quase todos nós ansiamos por este sentimento. Mas ela traz consigo a ilusão: apaixonamo-nos pelo nosso ideal de amor. Por isso é comum entrarmos em conflito com o(a) parceiro(a) quando percebemos seus “defeitos”: com o passar do tempo, o encanto desaparece, ele(a) torna-se real. Paixão e amor são distintos. Amar significa renunciar à embriaguez da paixão e apreciar o outro pelo que ele é.
A história de Tristão e Isolda é um mito, o mito do amor romântico. E como todos os mitos da humanidade, este também reflete nosso funcionamento psíquico. Tristão e Isolda são o modelo de homem e mulher perfeitos. Quando nos apaixonamos, é por nosso Tristão ou Isolda interior que ficamos enfeitiçados. Mas se vivêssemos apaixonados, nada construiríamos, estaríamos presos ao outro e nem sequer conseguiríamos dividir nosso amor com um filho. Assim, para nossa sobrevivência e perpetuação, somos inerentemente capazes de transformar a paixão/amor romântico num amor de carne e osso.

quarta-feira, setembro 26, 2007




Em confronto com o desconhecido

Segundo Carl Gustav Jung, psiquiatra e escritor suíço, o ser humano alcança apenas uma parte do mundo, construindo seu próprio sistema de mundo. Muitas vezes, sentimos e percebemos este sistema como única realidade possível – somos aprisionados por ele.
Teoricamente, a idéia parece complexa, mas podemos compreendê-la no cotidiano. Não só evitamos o contato com quem não pensa como nós, como também condenamos a atitude alheia por não satisfazer nosso critério de certo e errado. Agrupamo-nos com pessoas que têm valores semelhantes aos nossos. Afirmamos não ter preconceito e acreditamos tratar a todos com ética e justiça, mas isto deixa de acontecer no momento em que nossas crenças são questionadas...
De fato, é da natureza de cada um de nós a construção da própria visão de mundo. A formação de conceitos é resultado do nosso desenvolvimento e é através deles que temos acesso à realidade. Sem eles, seria impossível nosso diálogo com o outro. Por outro lado, é também inerente ao ser humano a capacidade de ponderar sobre suas crenças e modificá-las. Mas, na prática, costumamos ser intolerantes com o que nos é estranho... Quantas guerras foram travadas pela não aceitação das diferenças (étnicas ou religiosas)? Quantos conflitos familiares, no trabalho ou em qualquer outro grupo acontecem por não conseguirmos entender alguém que não pensa como nós?
Não é uma tarefa simples aceitar uma postura discordante de nossos valores. Geralmente, não é uma questão de escolha. Admitir como correta uma atitude estranha a nós, pode nos colocar em contato com aquilo que uma vez enterramos e não pretendíamos trazer à tona, pois ir ao encontro do nosso íntimo dói – dúvidas são reacendidas. Como ninguém deseja sofrer, livrar-se de um possível tormento, julgando inadequado o que é estranho, é uma forma de defender o próprio bem-estar. No entanto, este bem-estar pode ser apenas imediato, uma vez que a pessoa que se apega fervorosamente a seus princípios, tende a se relacionar com poucos, além de se frustrar demasiadamente quando é contrariada.
Sofrer ao acolher o desconhecido é geralmente inevitável. Porém, é recompensador, pois quem acrescenta a si novas idéias e atitudes, aperfeiçoando as já existentes, expande seu sistema de mundo e torna-se mais altruísta.

sexta-feira, setembro 21, 2007


Memórias de um pedaço de pano

Sou uma camiseta, mas não uma qualquer: tenho 14 anos e trago em mim o retrato de um famoso líder de banda de rock. Estou velha. Minhas condições são realmente precárias: parece até que participei de uma grande batalha! A verdade é que fui muito usada desde que fui escolhida na Rodoviária de Ribeirão Preto.
Minha dona me ganhou quando estava com a idade que tenho hoje. Ela era fã dos Guns N’Roses e, especialmente, do vocalista, Axl Rose. Mas ao procurar, nesta cidade, por uma camiseta estampada com seu ídolo, ela não encontrou. Para a alegria dela, sua tia achou-me e, coincidentemente, a minha estampa era a mesma do seu pôster preferido.
A primeira vez que ela me usou foi uma ocasião especial: não havia cinema aqui e a sua escola organizou uma excursão até o shopping de Bebedouro para que os alunos assistissem “Questão de Honra”. Ela me vestiu com orgulho (naquele tempo, início da década de 90, não se usava “blusinhas” ou baby-looks), completando o traje com uma bermuda jeans e tênis. Neste dia, senti-me parte de sua identidade!
Lembro-me também que minha dona adorava me colocar para ir às aulas de teclado. E, depois que inaugurou o shopping de Barretos, foi comigo muitas vezes lá. Apareço também em várias fotos: em algumas, além de mim, ela está com um lenço amarrado na cabeça, tal como Axl Rose costumava fazer. Sua amiga e sua irmã a acompanhava na “fantasia”. Mas poucas vezes saíram em público assim, pois minha dona, apesar de gostar de usar o lenço, ficava envergonhada (vivendo entre elas, notei que o comportamento de uma influenciava o das outras. Deve ser porque estavam na tal da adolescência...).
Aos poucos fui sendo deixada de lado. Meninas não mais vestiam camisetas. Porém, minha dona não me descartou completamente. Guardou-me no armário junto com outras camisetas, como a da Copa de 94 e as da Copa de 90 e 86(!). Alguns anos atrás, ela resolveu adotar-me como pijama. Não era o que eu esperava, mas foi melhor do que ficar inútil...Quando ela começou a usar suas camisetas para praticar esporte, infelizmente eu já não estava em condições para isso. Tornei-me um farrapo. No entanto, ela ainda dorme comigo, mesmo com seus familiares insistindo para jogar-me no lixo. Presumo que ela não o faz porque, ao lhe trazer boas lembranças, induzo-a a bons sonhos.

quarta-feira, setembro 12, 2007


Maturidade e brandura

Algumas situações que antes me incomodavam, deixam-me indiferente. Por um lado, fico feliz, pois isto significa que estou cada vez mais apta para superar os percalços da vida. Por outro, entristeço-me, já que posso estar menos sensível... Então, indago-me: É preciso endurecer para atingir a maturidade?
Na infância, o ser humano é extremamente suscetível, pois está aberto para o mundo. É preciso pouco para fazê-lo rir ou chorar. Fala o que pensa – chega a ferir o outro por ainda não ter aprendido a encobrir seus sentimentos...Os anos passam e vamos assimilamos valores e normas sociais: o adolescente pondera sobre o quê e com quem falar, pois isto é essencial para a sua inserção num grupo. Mas, mesmo que guarde suas impressões para si, é extremamente sensível, sofrendo por razões que os mais velhos geralmente acham banais.
A aquisição da responsabilidade e da independência em relação aos pais (não só financeira como também emocional) é basicamente o que faz alguém ser considerado adulto. No entanto, na prática, isto não basta: uma pessoa adulta deve controlar seus impulsos, agir com austeridade e ter metas bem definidas, sobretudo se ela estiver inserida numa comunidade tradicional. Pouco espaço sobra para a espontaneidade, pois ser comedido é quesito para ser aceito socialmente – sem percebermos, quanto mais velas apagamos, mais restringimos nossa franqueza, reservando-a somente àqueles que consideramos íntimos...
Também deixamos de nos comover com questões que a maioria julga irrelevante ou escolhe ignorar, já que trazê-las à tona tornar-nos-iam inconvenientes. Além do mais, para usufruir um bem-estar material, o adulto geralmente centra-se no trabalho e na família. Assim, é comum um jovem universitário engajar-se em causas político-sociais que visam a igualdade social e, ao entrar para o mercado de trabalho, abandonar seus ideais.
Não sucumbir a este modelo de adulto é pouco provável. Mas busco resguardar, da minha infância, a curiosidade e o encanto pelo novo, e, da minha adolescência, a urgência de viver e a disponibilidade para fazer novos amigos. Meus ideais estão preservados, ainda que muitas vezes, no conviver, sinto-me impelida a escondê-los...
Acredito que a seriedade e sensatez adulta realmente proporcionam menos sofrimento. Porém, parodiando Che Guevara, é preciso amadurecer, mas jamais perder a ternura!

terça-feira, setembro 04, 2007


Meu relicário

Depois que terminei minha graduação, estando ainda em São Carlos, sentia-me carente de amigos. A maioria deles havia deixado a cidade (minha sorte era ter meu amor por perto – um amigo incomparável). Na época, desabafando pela internet com uma amiga, concluímos que fazer uma amizade verdadeira depois de formado é complicado porque, nesta época, as pessoas já têm um grupo fechado de amigos e não estão dispostos a conhecer outros. Ela também sofria com a falta de amizades. Mas acabei voltando para cá. E aqueles dos quais eu nunca tinha me afastado, receberam-me de braços abertos...
Embora nunca tenha formado um grupo homogêneo de amigos, eles mostraram-se igualmente fraternos nos momentos mais críticos da minha vida...Jamais elegi um como o melhor. Não porque quero fazer média, mas sim porque cada um tem aquele quê de especial e nenhum substitui o outro. Um deles, por exemplo, não tem papas na língua (colocando-me em situações embaraçosas), mas também me faz rir e pensar. Outro é meu informante número um, sabe de tudo que acontece no mundo (está com costume de me irritar tal como faz aquele que citei anteriormente, mas não me encolerizo para valer, pelo contrário, divirto-me).
Inesperadamente, reencontrei duas amigas preciosas dias atrás. Uma delas, mesmo morando perto, estava distante...Foi extremamente prazeroso, passamos horas apenas conversando. A outra, vive hoje bem longe daqui. Veio visitar a família e os amigos. Ouvindo-a convenço-me cada vez mais que felicidade e simplicidade são indissociáveis...Com ambas senti como se o contato não tivesse sido interrompido: muito em nós mudou, mas o afeto permaneceu...
Enfim, tenho comprovado que sempre é possível não só aprofundar as relações de amizade como também fazer novas. Pois alguns com os quais eu conversava apenas casualmente, tornaram-se grandes amigos. E através deles ganhei novas significativas amizades: as respectivas namoradas. Outros, mesmo estando sempre à minha vista, eu tinha receio de conversar. Eles têm me mostrado que a aparência realmente engana...
Saúdo hoje meus amigos barretenses, pois minha vida aqui sem eles seria opaca. E sinto-me feliz e aliviada por eles terem me mostrado que muitos corações, inclusive o meu, são capazes de abrir-se para o desconhecido!