Mafalda


quarta-feira, agosto 29, 2007


Ecos de “Aquarela”

Estava dirigindo e ouvindo música quando um trecho de “Aquarela” chamou minha atenção: “Sem pedir licença muda nossa vida/ E depois convida a rir ou chorar...”. Para quem não lembra dos versos anteriores, Toquinho refere-se ao futuro. Em seguida, completa: “Nessa estrada não nos cabe/ Conhecer ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe/ Bem ao certo onde vai dar...”. Que a vida é imprevisível, todos sabem. Porém, viver sob esta condição, tranqüilamente, poucos conseguem...
Às vezes estamos bem, nossa vida é como sempre sonhamos e de repente um infortúnio acontece. Não só o que está por vir torna-se sombrio, como também o agora. Ficamos sem horizonte e sem chão. Podemos nos recupera logo, mas no momento em que somos surpreendidos é desesperador...Alguns, mesmo depois de restabelecidos, tornam-se receosos: evitam situações e pessoas desconhecidas. Tentam controlar o futuro a fim de não sofrer como no passado. No entanto, independente da vontade, o novo virá. Podemos fazer o máximo para que a nossa vida fique em nossas mãos como deixar de ter uma vida social após uma decepção... Porém, fugir do sofrimento pode trazer dores ainda maiores, além de nos privar de muitas alegrias.
Assim, acredito que a imprevisibilidade do futuro tornar-se-á angustiante ou não de acordo com as situações desagradáveis anteriormente enfrentadas – o modo de trabalhar o sofrimento refletirá na atitude diante do inesperado. Quem, por medo ou prevenção, prende-se ao passado, acaba estacionando-se lá. Geralmente pensa “está ruim, mas poderia ser pior”. Para sentir-se seguro, resolve que nada fará mudar seu “jeito de ser”, preparando-se para não se atingir por acontecimentos que o leve a repensar sua conduta. Já quem tira proveito do que sofreu (ainda que isto signifique dias de reflexão e noites mal-dormidas), não deixando que o desagrado, por pior que seja, limite o resto de sua vida, continua investindo no presente sem temer o dia de amanhã.
Tudo que vivemos jamais se repetirá: não só o mundo como também nós mudamos a cada segundo. Desfrutar de cada momento, sintonizando-nos de fato com aquilo que estamos fazendo, permite-nos desvencilhar dos aborrecimentos passados e viver plenamente o instante. Se o futuro nos trouxer lágrimas, já saberemos como torná-las passageira.

quinta-feira, agosto 23, 2007


Não se deixe dominar!

Não é de hoje que o ser humano perde-se em vícios. Dentre eles, o tabagismo, o alcoolismo e o abuso de drogas são os mais preocupantes. Felizmente, hoje em dia o dependente é considerado portador de uma doença e não mais alguém sem caráter. No entanto, à medida que a sociedade se modifica, surgem outras formas de dependência, por exemplo: não conseguir se desvencilhar do computador e alimentar-se excessivamente ao passar por qualquer desagrado. Vícios como estes trazem prejuízos visíveis e assim não é difícil perceber que se trata de um problema. Porém, as práticas saudáveis, dependendo da forma como são realizadas, podem também aprisionar o indivíduo, mas, por serem valorizadas socialmente, são aplaudidas e vistas como apropriadas. Tudo que é feito exageradamente é potencialmente prejudicial...
Embora já compreendamos que o trabalho em excesso pode gerar estresse, temos o costume de admirar quem se dedica quase integralmente a seu ofício. Certamente os familiares de uma pessoa que não consegue deixar de trabalhar, queixam-se e exigem mudanças. Mas de nada adianta se a prioridade dela for o status social que o trabalhar demais proporciona: “por que julgarei minha conduta problemática se consigo o que desejo?” – provavelmente é assim que ela pensa. Mas se analisarmos atentamente não seria esta também a justificativa de um dependente de drogas?
Consumir pode tornar-se facilmente um vício, pois desde a mais tenra idade somos impelidos a isso: Ter para Ser é o que a nossa sociedade estimula. Para aqueles de alto poder aquisitivo, o consumismo dificilmente torna-se um grande problema (a não ser que seja desenfreado a ponto de causar danos às finanças familiares). Já entre as pessoas de médio e baixo poder aquisitivo, há os que se alimentam inadequadamente para poder satisfazer a necessidade de comprar uma roupa; outros investem em carros e equipamentos eletrônicos, mas são negligentes com a educação dos filhos. Porém, talvez não sejam consumistas compulsivos e sim “viciados” na idéia de que status é o bem máximo.
O hábito transforma-se em vício quando somos controlados por ele. A partir daí, não importam mais as conseqüências, uma vez que também não nos responsabilizamos por elas. Tornamo-nos vítimas. E perdemos o que acredito ser nossa maior preciosidade: a liberdade.

terça-feira, agosto 14, 2007

Dê valor ao que te faz humano!

É sabido que falhas na comunicação provocam desentendimentos. Ainda assim, insistimos num diálogo precário com familiares e amigos. Apesar de estarmos na era da comunicação e constantemente surgir uma novidade a fim de maximizar as formas de interação, não aprimoramos suficientemente o básico: falar e escutar.
O ato de falar, sobretudo profissionalmente, é bastante valorizado. Conseqüentemente, existem cursos para tornar-se um palestrante de sucesso, um vendedor eficiente etc. No entanto, pouco destas técnicas são úteis no cotidiano, pois relacionamentos profissionais diferem dos pessoais: ser cordial no ambiente de trabalho, dependendo da profissão, é tão importante para se garantir o emprego quanto realizar bem o ofício; além disso, é mais fácil se agradável com aqueles que temos uma relação distante, impessoal.
Falar amistosamente com uma pessoa que nos é querida exige um esforço maior. Muitas vezes nos sentimos atacados e, por acharmos que ela nos conhece bem, deduzimos que ela nos atingiu propositalmente. Então partimos para o contra-ataque, ofendendo-a ou procurando refúgio num silêncio rancoroso...E se, em vez disso, mantivermos a calma? Podemos esclarecer que não gostamos do que foi dito, explicando ao outro que palavras ou gestos, aparentemente banais, deixam-nos desconcertados. Porém, nada disso será válido se empregarmos um tom acusador. É preciso paciência. Às vezes é bom se retirar, deixar para conversar depois (nestes momentos, desenterrar mágoas só trará mais desgostos: pensar em como dialogar visando uma reconciliação pode ser árduo, no entanto, beneficiará a ambos).
Quando um fala, outro escuta? A pergunta seria dispensável se ouvir com atenção não fosse raro hoje em dia. Estamos demasiadamente preocupados em expor idéias, contar as novidades, desabafar etc. Escutar não seria incomum se tivéssemos abertos para conhecer o outro, compreendê-lo. Talvez ele precise apenas de um ouvido acolhedor e quase nenhuma palavra: um olhar ou um sorriso pode ser suficiente. Mas a ânsia de falar nos leva a ignorar a necessidade alheia: apressamo-nos em aconselhar ou discorrer sobre nós mesmos.
Se não acrescentarmos à comunicação prudência e sensibilidade, os cientistas serão obrigados a reavaliar a tese de que a principal diferença entre o ser humano e os outros primatas é a linguagem por nós desenvolvida.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Abracadabra!

Dois gênios do cinema faleceram na semana passada: Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Longe de Hollywood, ambos os cineastas inovaram (cada qual à sua maneira) a linguagem cinematográfica e tornaram-se referências para diretores do mundo todo. De Bergman, assisti a alguns filmes e, dentre eles, Saraband é o meu favorito. Já de Antonioni, infelizmente, nenhum: ao ler sobre sua obra, prometi a mim mesma ver Blow Up. Mas por acaso caiu em minhas mãos um filme que à primeira vista não passava de entretenimento: O Grande Truque. Não que seja uma arte como às dos cineastas mortos, mas tem valor, sobretudo, por ensejar uma certeira metáfora sobre a Sétima Arte.
No geral, o filme conta a história de dois mágicos profissionais que se tornam inimigos após uma tragédia. Porém, se olharmos bem de perto (como pede um dos protagonistas), perceberemos que o diretor do filme não inteciona apenas falar de mágica, mas também do próprio ato de fazer cinema: os mágicos são os cineastas e a platéia, nós, amantes da “telona”. Qual é a razão de ser do cinema? Assim como os truques nos iludem, nos levam a ver o logicamente impossível, os filmes, independente do gênero, transportam-nos para uma realidade inventada. Do mesmo modo que nos encantamos com uma mágica, mesmo sabendo que é “armação”, choramos, sofremos, nos assustamos e rimos diante de uma história fictícia.
Mas a analogia entre mágica o cinema não pára por aí. O próprio enredo de O Grande Truque desenvolve-se como uma apresentação de ilusionismo (segundo o narrador-personagem, todo grande truque consiste em três atos seqüenciais: “A Promessa”, algo aparentemente comum é exibido; “A Virada”, momento em que o comum transforma-se em extraordinário; e, por último, “O Prestígio”, as vidas ficam por um fio e o espectador vê alguma coisa impressionante). Desde Alfred Hitchcock, os bons suspenses seguem esta lógica. Além disso, tanto na mágica como nos suspenses hitchcockianos tudo que é apresentado ao espectador tem um porquê. O Grande Truque não foge à regra...
Bergman e Antonioni mostraram a natureza humana como ela é, não nos iludindo quanto a isso. Por outro lado, foram mestres inigualáveis no truque de nos fazer vivenciar os dramas de seus personagens. Mas enquanto necessitarmos de lágrimas, enigmas, aventuras, risos e surpresas, outros cineastas continuarão a satisfazer, magicamente, nossos desejos.

sexta-feira, agosto 03, 2007


O novo sempre vem

Conhecer é uma tarefa que parece mesmo não ter fim. Quando você acha que compreende a si mesmo, de repente, encontra-se reagindo estranhamente... Quando você pensa que seu julgamento sobre alguém é o correto, espanta-se frente a atitudes até então nunca vistas...Temos uma intensa necessidade de conservar o que somos, arraigando-nos a certas características para nos definir. Semelhantemente, esperamos que o outro não mude e atribuímo-lo uma personalidade estática. Suponho que esta aspiração para conservar tudo como sempre foi seja a responsável pelo nosso assombro diante do novo.
Acredito que na relação entre pais e filhos, espantos ocorrem em abundância. Há pequenos sustos como aquele vivido por um pai acostumado com filho que ouvia Rebeldes e de repente começa a se esgoelar no quarto com o heavy-metal do Iron Maiden (o fato do pai se assustar não significa necessariamente que ele desaprova). Outras mudanças de rumo têm um impacto maior, por exemplo, quando uma jovem, ótima aluna, anuncia para seus pais, à véspera da inscrição para o vestibular que, em vez de pleitear uma vaga no curso de Medicina, concorrerá para a formação em Artes Cênicas. Assim, independente dos pais serem mais ou menos conservadores, surpreendem-se diante das transformações repentinas daqueles que julgavam conhecer tão bem. Felizmente, conflitos como estes podem ser superados se houver disposição para aceitar o que não estava escrito.
Fora do ambiente familiar, a tolerância com o diferente é menor. Ao inserir-se em um grupo (de trabalho, estudo, esporte, etc) que já tem sua dinâmica (funcionamento) estabelecida, é preciso ser cuidadoso para não ser apontado como a causa das desavenças. Suponhamos que um novo membro de um grupo qualquer apresente propostas visando melhorar o rendimento e amenizar os conflitos já existentes: o líder do grupo, caso se julgue onipotente, pode se sentir ameaçado (o novato teve uma idéia que ele, o líder, não havia pensando). Se assim for, o líder certamente colocará todos a favor dele, estimulando o isolamento do novo membro...Mas é preciso ressaltar que não é apenas o grupo que rejeita o novo: ao conservar intactas convicções e estratégias, a pessoa que se inclui no grupo também está se recusando a compreender o diferente.
Impor é tarefa para tiranos. Conceder é atitude de sábios.

terça-feira, julho 24, 2007


Perdas e ganhos

O trágico acidente com o avião da Tam deixou o país inteiro atônito! Em meio à festa esportiva do PAN o horror nos surpreendeu. Como é de praxe no Brasil, só agora os problemas no Aeroporto de Congonhas terão a devida atenção: foi preciso que 200 vidas fossem interrompidas abruptamente para as autoridades responsáveis agirem...
Dias atrás, meu pai estava assistindo à TV e viu uma entrevista com um ex-piloto da Varig. Segundo o entrevistado, a Varig tinha como norma reduzir o número de passageiros quando estava chovendo: estando o avião mais leve, a aterrizagem na pista molhada tornava-se mais segura. Não se sabe ao certo porque o piloto do Airbus da TAM não conseguiu pousar corretamente: as primeiras informações divulgadas na mídia responsabilizaram o piloto e o co-piloto, mas li uma entrevista na internet de um ex-piloto, também da Varig, na qual ele diz que o Airbus estava com o peso máximo para pouso e, apesar de provavelmente o piloto ter falhado, as condições da pista foram determinantes para a ocorrência da tragédia.
Diante destas informações fiquei perplexa ao perceber que a simples redução no número de passageiros provavelmente teria evitado o infortúnio. As empresas de aviação preferem oferecer o máximo possível de passagens por vôo (além de passarem uma ilusória imagem de eficiência aos consumidores, não arcam com prejuízos financeiros), em vez de garantirem uma viagem mais segura nos dias chuvosos.
É impressionante como o dinheiro vale mais que a vida. O acidente da TAM, pela dimensão da tragédia, evidencia as conseqüências da ambição desmedida. Mas a ganância humana não é novidade. Basta lembrar (citando apenas poucos exemplos) das vítimas africanas da indústria do diamante, dos povos do Oriente Médio constantemente em guerra devido à indústria do petróleo e dos indígenas da América que foram dizimados em nome da conquista de terras que a eles pertenciam.
Luto para não acreditar que é próprio do ser humano cegar-se diante da possibilidade de enriquecer (ao ponto de negligenciar a vida alheia). Já está na hora de nos sensibilizarmos não somente perante catástrofes como à da semana passada, mas também ante às milhões de pessoas que vivem em condições subumanas graças ao luxo exacerbado e frívolo que uma pequena parcela da população mundial desfruta.

quinta-feira, julho 19, 2007


À Seleção de Robinho

A final da Copa América de Futebol, no último domingo, deixou claro, mais uma vez, que favoritismo não garante vitória. Quem acompanhou a competição, viu a seleção Argentina apresentar um futebol de dar inveja a nós brasileiros: Riquelme e Messi nos fizeram ter saudade da época em que ver a seleção canarinho era um show de bola. Já seleção de Dunga chegou à final por caminhos tortuosos e estava difícil acreditar que teríamos chances contra o nosso maior rival. As esperanças foram depositadas em Robinho. No entanto, o camisa 11 da Seleção não jogou bem. Apesar disso, a “Albiceleste” foi encurralada e cravamos um inesperado 3 a 0, com direito à um belo gol de Júlio Batista aos cinco minutos do primeiro tempo.
Lembrei-me de algumas Copas do Mundo. Na última, éramos os favoritos. Mas os comentaristas esportivos alertavam que sempre quando o Brasil chegava a uma Copa com toda aquela badalação, naufragava. Coincidência ou não, assistimos a uma constelação de craques jogar de forma apática e cair diante da França nas quartas-de-final (o tão falado “quadrado mágico” teve êxito apenas nos comerciais publicitários). Nas Eliminatórias para a Copa de 2002, os argentinos foram a grande sensação. Em vão: foram eliminados na primeira fase da Copa. Por outro lado, a seleção de Parreira de 1994 chegou à Copa desacreditada e, mesmo não agradando a todos brasileiros, conquistou o Tetracampeonato.
Assim, em competições curtas, envolvendo seleções, como a Copa do Mundo, a Copa América, a Eurocopa etc, dispor dos melhores atletas do país não garante o sucesso. No entanto, na ultima Copa América, a Argentina não tinha apenas craques de renome internacional: estavam entrosados e imbatíveis. O que aconteceu na final?
A imprensa brasileira dizia que o Brasil só teria chances de vencer se a rivalidade e os últimos resultados obtidos pela Seleção Brasileira frente à Argentina intimidasse nossos hermanos. Se isto aconteceu não sei dizer. O fato é que brasileiros jogaram com raça e categoria, impossibilitando os argentinos de repetirem as atuações anteriores. Na comemoração, liderados por Robinho, a seleção campeã da América desabafou cantando o trecho de uma samba de Jorge Aração que diz: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou”.

terça-feira, julho 10, 2007


É mais forte quem sabe mentir?

Acredito que a maioria das pessoas, desde a mais tenra idade, seja instruída a ser verdadeira. Aprendemos que a sinceridade é a virtude que sustenta as relações humanas saudáveis. Durante a infância, é fácil agir com franqueza. Mas à medida que os anos passam, a vida nos ensina que “dizer a verdade” nem sempre é conveniente. Ouvi uma opinião radical a respeito disso: o escritor mexicano, Guillermo Arriaga, em entrevista ao Roda Viva, disse que a mentira garante a sobrevivência, já a verdade pode levar à autodestruição...
Entre os extremos verdade/mentira ou sinceridade/falsidade há outras condutas que, aos poucos, assimilamos. Por exemplo, omitir: apenas deixamos de dizer o que sabemos, ou seja, não nos prejudicamos, mas, por outro lado, às vezes beneficiamos alguém em detrimento de outro. Ou então “falar meia-verdade”: contamos até o ponto que imaginamos não ferir o outro e/ou que não nos comprometa. Podemos também permitir que outra pessoa fale por nós: ou pedimos isto diretamente a ela ou simplesmente damos a deixa já sabendo que ela dará o recado. Embora estes comportamentos não sejam o ideal, muitas vezes, por inúmeros motivos, são necessários e, de certa forma, compreensíveis. Porém, há uma prática, infelizmente já enraizada no convívio social, que considero sórdida: esperar o outro virar as costas para maldizê-lo e, ao reencontrá-lo tratá-lo como um bom amigo (comentar sobre a vida de alguém é bem diferente de denegri-la).
“Ser sincero” realmente é mais penoso que simular. Creio que “não magoar o outro” seja a justificativa da maioria para não dizer a verdade. Eu concordo em partes: algumas verdades, em alguns momentos, para algumas pessoas, não devem ser ditas. O problema é que a exceção virou regra! Além disso, se somos tão criativos para mentir, também somos para imaginar um meio e um momento menos brutal para contar algo doloroso (só que para isto é preciso ainda sensibilidade e empatia...). Assim, na maioria das vezes, mentimos não para poupar o outro e sim para garantir nossa aprovação diante dele e/ou do grupo social: intencionamos mais preservar nossa imagem do que o bem-estar do próximo.
Apesar de “dizer a verdade” significar um risco para quem quer ser bem-quisto socialmente, acho que mais vale relacionar-se com poucos de forma autêntica do que se condenar a uma incessante dissimulação.

quarta-feira, julho 04, 2007


Escolhendo um mundo maravilhoso

Às vezes sinto um contentamento sem razão aparente. Segunda-feira passada me perguntaram se eu tinha visto um “passarinho verde”, pois eu estava cantarolando “What a Wonderful World”. Então eu respondi: “Escutei esta música o dia inteiro. Acho que ela me deixou feliz!”. Eu não só tinha escutado a canção, mas também lido um comentário que Louis Armstrong fez, em 1970, sobre o porquê de dizer “que mundo maravilhoso” diante de tantas guerras, fome e poluição. Eis alguns trechos de sua fala: “Parece-me que o mundo não é tão mau assim, mas o que nós lhe estamos fazendo. O que estou dizendo é: veja que mundo maravilhoso ele seria se lhe déssemos uma possibilidade (...). Se a maioria de nós amassem uns aos outros, resolveríamos muito mais problemas...”.
Sei que quando estamos drasticamente tristes ou estressados, não é uma canção que, magicamente, muda nosso humor. Mas não era este o meu caso. Eu estava predisposta a felicidade, pois tive um domingo diferente: fui ao circo com minha família, inclusive minha mãe, minhas sobrinhas e meu sobrinho. Há anos eu não assistia a um espetáculo circense. Foi muito bom ouvir a risada da criançada quando os palhaços se apresentavam! Além disso, à noite, conversei bastante com meu sobrinho: como é gostoso conhecer um pouco mais de alguém que você ama!
Acho curioso o fato de que passam desapercebidos muitos acontecimentos capazes de nos alegrar, mas é fácil encontrarmos motivos para nos irritar, irar ou entristecer. Muito do que banalizamos poderia nos fazer bem se déssemos a mesma atenção concedida ao que, potencialmente, nos aflige. Desta forma, acredito que muitas vezes criamos situações estressantes. Por exemplo, imaginem a cena: um pai está vendo televisão. Chega seu filhinho de quatro anos e pergunta “Papai, por que o céu é azul?”. O pai esbraveja “Vá brincar, menino! Não percebe que estou vendo o jornal!”. Nesta situação (que embora hipotética, penso ser bastante corriqueira) o pai não se permitiu desfrutar a companhia da criança, ignorando-a; escolheu assistir às notícias e, provavelmente, amargurou-se por causa delas.
Penso que os dizeres de Louis Armstrong não são apenas palavras bonitas. As escolhas que fazemos, cotidianamente, revelam quem somos e o que esperamos do mundo. Amar o Outro não é tão simples como parece, mas certamente é recompensador!

terça-feira, junho 26, 2007



Reinvente-se sempre!

Gilberto Dimenstein, em sua coluna dominical na “Folha de S. Paulo”, comentou uma pesquisa onde se constatou que idosos, após aprenderem usar a internet, sentem mais desejo de viver. A partir deste dado, o jornalista concluiu que o engajamento em qualquer atividade desafiadora faz bem para a saúde de qualquer ser humano, seja ele criança, jovem, adulto ou idoso. Em outras palavras, aprender uma nova habilidade significa saborear a vida, pois o corpo e/ou a mente são levados à ação. Isto, sobretudo para o idoso, é extremamente valioso, ainda mais se ele pensa que só lhe resta esperar pelo fim...
A curiosidade foi o motor das maiores descobertas da história da civilização. Mesmo Albert Einstein nada teria realizado se não estivesse incutido em sua alma o anseio de inovar (e talvez seja esta a primeira condição para que um talento se desenvolva). Infelizmente, muitos de nós, quanto mais velhos ficamos, mais nos acomodamos naquilo que já sabemos. Deixamos para trás aquele interesse que tínhamos na época da infância – aquela necessidade de ter explicação para tudo. E, para piorar, muitos pais e professores além de podarem o desejo de conhecer da criança, repreendendo as indagações que ela lhes dirige, ignoram as aptidões dela.
Lembrei-me, agora, de um verso de Chico Buarque “(...) o tempo passou na janela e só Carolina não viu”. Quantas “Carolinas” conhecemos? A pessoa que desiste de desafiar a si mesma, de testar seu saber, de buscar novos limites conformou-se em ver a vida de camarote. É confortável, há menos riscos de se decepcionar. Mas, ao mesmo tempo, significa privar-se do prazer que é tentar aprender uma nova habilidade. Pois, ainda que não se consiga atingir o objetivo, o tempo dedicado será válido: caminhar por territórios desconhecidos é, por si só, assimilar experiências. Já, imagine aventurar-se numa atividade e descobrir que não só é capaz de realizá-la como também se sente muito bem fazendo?
Talvez, desbravar novos horizontes faça tão bem a nós, simplesmente, por ser uma necessidade básica do ser humano. Neste sentido, negá-la, abster-se dela representa infringir nossa natureza e, por conseguinte, propiciar o nosso adoecimento. Não é à toa que o idoso, ao aprender uma nova atividade, passa a apreciar mais a vida. Viver ou morrer, de certa forma depende de nós...

terça-feira, junho 19, 2007






Tempos memoráveis

Lugares têm vida própria, pois carregam consigo uma história – daí a importância de conservá-los ainda que seja apenas na memória... Ultimamente um lugar em especial vem habitando meus pensamentos. Tem sido inevitável não me lembrar do “Bar do Caju”...
Dias atrás conheci e conversei com quem dirigiu o “Caju” até 1987: o irmão do saudoso João. Seu rosto e sua voz pareceram-me familiar... Naquela noite eu soube que o “Bar do Caju” foi o primeiro bar do Brasil projetado por um arquiteto, que Inezita Barroso costumava freqüentá-lo e que, por um tempo, a venda de uísque lá só era inferior à de bares das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte! Não conheci os anos dourados do “Caju” mas senti uma saudade esquisita (aquela sensação nostálgica por algo nunca vivido por nós). Imagino que Barretos era bem diferente...
Quando comecei a freqüentá-lo, o “Caju” já não era um bar-restaurante, era um botequim. Nesta época, já estava nas mãos do João e de sua esposa. Eu adorava sentar no balcão e papear com ele. Quando eu e minha amiga Amanda passávamos por lá durante o dia, parávamos apenas para conversar – o João tinha fama de ranzinza, mas conosco raramente ele se portava assim. As ocasiões que ele ficava extremamente mal-humorado eram aquelas que, por ter festa grande no Grêmio (“Peão e Sambão”, por exemplo), o seu bar lotava: além do trabalho triplicado, era mais provável haver brigas. Em dias assim, as bebidas eram servidas apenas em copos de plástico e quem era freqüentador assíduo sabia que o João não estava para conversa.
Tenho saudade! E afirmo com certeza: todos meus amigos que conheceu o “Bar do Caju” também têm. Nos fins de semana, não era preciso combinar onde nos reuniríamos, pois, mesmo que fôssemos para outro lugar, o ponto de encontro da turma era lá... Conheci muitas pessoas no balcão e nas mesas que ficavam na calçada. Com algumas, travei uma amizade preciosa. Ouvi piadas e conversas “cabeças”. Às vezes entrávamos na boate do Grêmio, outras permanecíamos no “Caju” durante a noite toda...
Quando saio com meus velhos amigos, não há uma noite sequer que não lembramos do João e seu “Bar do Caju”. Ele faleceu no dia em que o futebol brasileiro conquistou o pentacampeonato. Desde então, para nós, a noite barretense não foi mais a mesma...

terça-feira, junho 12, 2007


Sincronizando corações

Eu ainda acredito na pureza das pessoas e, por isso, ainda sonho com um mundo melhor. Digo ‘ainda’ porque se dependesse dos noticiários televisivos eu já teria desistido. Para prevenir-me de uma decepção fulminante ante a vida, pouco ligo a telinha. Gosto de filmes, pois me dão esperança... A partir destas poucas linhas, o leitor mais apressado pensará que me alieno da realidade e que creio num mundo ilusório. Mas algumas obras cinematográficas são mais que meros entretenimentos e, dependendo de como são apreciadas, tornam-se fonte de inspiração para o bem-viver. Um exemplo é “Pequena Miss Sunshine”.
Não sei se todos que já assistiram à história da garotinha que sonha em ser miss emocionaram-se tanto quanto eu. A meu ver, trata-se de uma das mais belas criações do cinema. Sem relatar o enredo (pois considero isto um imenso estraga prazer), discorrerei sobre as mensagens que, para mim, o filme transmitiu. Vamos a elas. Primeira: lute pela realização de seu sonho, por mais absurdo que ele pareça ser. Caso seja a aspiração de uma criança, ainda que para você pareça risível, apóie (neste momento, lembro-me de uma frase que o avô diz para animar a neta: "O verdadeiro perdedor é aquele que tem tanto medo de perder que sequer tenta alcançar a vitória"). Segunda: toda família tem suas esquisitices e talvez você odeie a sua por isso. Mas quando você mais precisar, ela estará pronta para te acolher. Além disso, ao ter contato com outros grupos familiares, você perceberá que jamais trocaria seus pais, irmãos e tios por ninguém, simplesmente por eles serem como são.
Já a terceira mensagem (em minha opinião, a mais bela) diz respeito à como ajudar alguém a enfrentar uma desilusão: concordo que precisamos nos frustrar para amadurecer, porém, evitar que alguém, principalmente uma criança, passe por uma cena traumática, é protegê-la (mesmo sendo o sofrimento necessário à vida, não o é a mutilação de uma alma). Pois ver teu sonho desmoronar, mas ao mesmo tempo contar com a o pleno apoio daqueles que sempre disseram te amar, faz-te acreditar que, embora você não se torne o que sonhara, é amado e aceito por quem realmente importa. Sentir-se assim talvez seja a genuína busca de todos nós...
Como o que foi dito contribui para aperfeiçoar o mundo? Segundo S. Freud: "Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais serve contra as guerras”.

terça-feira, junho 05, 2007


Por que eles “ficam”?

Se não me engano, aqueles que têm hoje trinta e poucos anos foram os primeiros praticantes do “ficar”. Refiro-me ao tipo de relacionamento amoroso adotado, principalmente, por adolescentes e caracterizado pela ausência de envolvimento afetivo e de compromisso posterior. Em outras palavras, “ficar” significa beijar alguém por algumas horas ou apenas por poucos instantes (às vezes um alguém que tenha acabado de conhecer e, neste caso, sentindo por ele somente atração física).
Andei lendo algumas pesquisas que confirmaram o que eu supunha: apesar de ser bastante usual “ficar”, os adolescentes preferem namorar. O que me intriga muito: por que “ficam” se ao que aspiram é um compromisso amoroso?
É nítido que a puberdade tem se iniciado cada vez mais cedo; o adolescente (ou pré), seja pela televisão, pela pressão dos amigos ou pelas transformações/exigências de seu próprio corpo, é impelido a começar sua vida amorosa. Por outro lado, mesmo os pais mais jovens, encontram dificuldades para acompanhar as mudanças no processo de adolescer ocorridas em tão pouco tempo (a adolescência vivida há quinze anos é bem diferente da que se perpetua atualmente), assustando-se quando seu “bebê” de 12 anos pede para namorar...Surge um conflito: os pais acham cedo, dizem para o filho que ele ainda não está na idade e deve aproveitar a infância, profetizando: “esta época não voltará jamais...”. Também falam que quando tinham esta idade brincavam muito ainda (imagino o espanto dos pais e os compreendo, mas, querendo ou não, os tempos mudaram) e proíbem seu filho de namorar. Além disso, passam a vigiá-lo mais de perto, restringem o uso do computador, vão à escola perguntar sobre o comportamento dele etc. Mas provavelmente nada disso adiantará... Presumo que seja a dificuldade criada pelos pais um dos fatores que leva o adolescente à “ficar”: não podendo assumir um compromisso como o namoro, mas, ao mesmo tempo, não querendo (de certa forma, não podendo de fato) se privar de “estar beijando”, ele opta por “ficar”, pois, sendo momentâneo, é mais fácil esconder dos pais.
Que os pais tenham receios é perfeitamente compreensível, mas escutar o que o filho deseja, procurar entender o mundo que ele vive e as necessidades que a ele são impostas talvez seja a melhor maneira de mantê-lo por perto (em todos os sentidos).

quarta-feira, maio 30, 2007


Censura ou Direito?

Dia 13 de maio último entrou em vigor a nova classificação indicativa para a televisão (Portaria 264 de 9 de fevereiro de 2007). Porém, o trecho mais polêmico está suspenso pelo Supremo Tribunal Justiça (STJ), devido a um processo movido pela Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão). Trata-se do artigo que define a vinculação entre faixa etária e horária, onde foram determinados horários para programas inadequados a crianças e adolescentes (até às 20h, qualquer idade; entre 20h e 21h, para maiores de 12 anos; entre 21h e 23h, 16 anos e, a partir das 23h, 18 anos). As emissoras alegam que estipular quando um programa poderá ser vinculado infringe a liberdade de expressão constitucionalmente garantida. No entanto, a classificação etária indicativa está também prevista na Constituição de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente (1990).
Deixando a lei de lado e enfocando a ética, pergunto: alguém acredita que a televisão preocupa-se com a educação da criança e do adolescente? Penso que as emissoras são fábricas de entretenimento e, interessadas em vender seus produtos, não medem esforços para atingirem altos picos de audiência. Por que não aderir a uma lei cujo critério de classificação televisiva é semelhante ao de democracias como Alemanha, Reino Unido e Suécia? Os detentores do “Quarto Poder”, além de comparar a regulamentação à censura ditatorial, argumentam que o governo está cerceando a responsabilidade dos pais. Mesmo que este zelo fosse verdadeiro, não se justificaria, pois a lei não retira a autonomia paterna (ninguém será incriminado por permitir que uma criança de 12 anos assista a uma novela das 21h).
A classificação televisiva permite aos pais obter mais informações sobre o conteúdo das novelas, séries, filmes, programas humorísticos etc (a lei exige que as chamadas para as exibições “a seguir” já contenham a recomendação etária e o respectivo critério – cenas de sexo e violência, por exemplo). Além disso, a determinação de horários auxilia aqueles que chegam à noite em casa e não têm meios para monitorar o que o filho assiste durante à tarde (ou muitos outros, que mesmo presentes, ignoram o que a criança vê...).
Resta-nos aguardar: finalmente à criança e ao adolescente serão assegurados o direito ao respeito e à dignidade, ou a mídia, sob o pretexto da égide democrática, continuará apresentando, em horários indiscriminados, conteúdos abusivos?

terça-feira, maio 22, 2007

Carência de Arte

Às vezes é revoltante morar em Barretos! Neste último fim de semana ocorreu, em diversas cidades do Estado, a Virada Cultural Paulista: shows, peças de teatro e cinema oferecidos gratuitamente à população. Moradores de Rio Preto, Araçatuba e Araraquara (citando apenas algumas cidades) puderam desfrutar os espetáculos. Já os barretenses tiveram que se contentar com as opções (por sinal, nada culturais) de sempre!
Sábado à noite. Eu estava subindo a rua 20, de carro, na companhia de um amigo. Ao passar em frente ao prédio do antigo Cine Barretos, meu amigo observou: “Se tivessem restaurado, talvez fosse possível a realização da Virada Cultural aqui...” Bom, não sei como está a questão da reforma do edifício, o fato é que nos causou tristeza ver aquele belo edifício inutilizado e cada vez mais degradado.
“Barretos não tem nada para fazer!” Já escutei e já pronunciei esta frase. Provavelmente, a maioria dos barretenses também. Eu não costumo viajar nos fins de semana, mas ouvi relatos de que nossa vizinha Bebedouro tem muito mais a oferecer, seja em matéria de entretenimento, seja de cultura (comparar com Rio Preto já é covardia).
É verdade que ultimamente até vem sendo possível prestigiar alguns eventos culturais na nossa cidade como saraus, exposições de arte, concertos e coquetéis de lançamentos de livros. Porém, tais apresentações normalmente são em ambientes restritos a convidados ou com entradas limitadas e/ou a preços inacessíveis para os menos favorecidos economicamente. Como é de costume no país, são estes os maiores prejudicados. Pois os barretenses privilegiados financeiramente, além de usufruir a cultura local, têm a oportunidade de assistirem, por exemplo, à apresentação de uma peça no Teatro Municipal de Ribeirão Preto...
Barretos acomodou-se em ser apenas a cidade da Festa do Peão, o que, cotidianamente, acrescenta muito pouco em termos de qualidade de vida para seus moradores. É preciso que a sociedade civil e o poder público conscientizem-se que oferecer opções culturais a toda população significa, além do bem intrínseco ao contato com diversas formas de arte, complementar a educação formal e contribuir para que jovens e crianças mantenham-se distantes de atos infracionais.

Nadime L’Apiccirella (nadime_lapiccirella@yahoo.com.br)

quarta-feira, maio 16, 2007


Lição de uma menininha

Já é lugar comum dizer que crianças podem nos ensinar sobre a vida – principalmente aquelas atitudes desaprendidas na busca pelo que acreditamos ser a maturidade. No Dia das Mães, minha sobrinha, Luíza, de apenas cinco anos, surpreendeu-me com sua sabedoria. .
Ela e sua irmã gêmea, Laura, estavam brincando com pedaços de imã e eu peguei uma bacia de plástico para colocarem um imã embaixo e outro em cima. Não deu certo, pois a bacia teria que ficar suspensa e não achamos um apoio adequado. Então eu comecei a fazer uma seqüência de batuques sobre a bacia, aprendida há muito tempo. Ambas quiseram fazer igual. Repeti inúmeras vezes. Elas tentaram imitar, mas perceberam que o som não era o mesmo. De repente, Luíza ordenou: “Muda de assunto!”, pondo fim à brincadeira. Eu dei gargalhada e Laura acompanhou-me. Luíza, que por um momento pareceu aborrecida, pegou seu picolé e riu muito também!
Alguém pode dizer que a frase de minha sobrinha é típica de um adulto. Concordo que o vocabulário seja, sobretudo a palavra “assunto”. É inevitável a incorporação da linguagem e comportamento adulto por uma criança no seu processo de crescimento: vê-se ainda que Luíza usou o vocábulo de forma metafórica, pois não era um assunto e sim uma brincadeira, o que demonstra sua capacidade de abstração. No entanto, Luíza apresentou espontaneidade e coragem, virtudes que em alguns momentos nos carecem.
Se pararmos para refletir, não são poucas as ocasiões que temos vontade de dizer simplesmente “vamos mudar de assunto!” e nos calamos, seja por receio de interromper o interlocutor ou por medo de admitirmos uma fraqueza. Luíza não estava preocupada em acabar com a minha diversão e não hesitou em dizer, mesmo que não diretamente: “eu não sei e, no momento, não consigo aprender”. Mas nem sempre o motivo de desejarmos cessar um diálogo é por não termos o conhecimento sobre ele: às vezes, ele nos incomoda por nos trazer lembranças dolorosas ou simplesmente por ser ofensivo. E mesmo nos causando sofrimento, continuamos ouvindo. Falta-nos a ousadia infantil! (Seja qual for a razão, reconhecer os próprios limites é mais doloroso para o adulto que, habitualmente, prefere se sacrificar, enganar a si mesmo e dissimular, em vez de admiti-los). Luíza lembrou-me que não somos obrigados a infringir nossa alma: basta mudar de assunto!

terça-feira, maio 08, 2007


Remediar não é o suficiente

Há quase duas semanas a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos somente para adolescentes que cometerem crimes hediondos. Além disso, a proposta prevê que o jovem deve ter pleno conhecimento do ato ilícito para ser submetido ao regime prisional, o que precisa ser comprovado por um laudo técnico elaborado pela Justiça.
Após o cruel assassinato do menino João Hélio, a sociedade clamou por mudanças rápidas e efetivas. Pode-se dizer que a proposta votada na CCJ é uma das respostas a esta demanda. Se aprovada pelo Senado e pela Câmera, estaremos protegidos, por um período maior, de indivíduos extremamente perigosos. Por outro lado, questiono se a redução da maioridade penal coibirá a criminalidade. A meu ver, o delinqüente juvenil que comete um crime bárbaro, com pleno discernimento do que está fazendo, dificilmente teme as conseqüências. Pelo contrário: o risco de ser pego talvez seja mais um motivador do ato do que um inibidor. E, seguindo este raciocínio, quanto mais drástica a punição, maior o risco e, portanto, mais estimulante tornar-se-á a prática do crime. Um outro dado que me leva a presumir a não diminuição dos crimes hediondos é a praxe que muitos criminosos adultos tem de recrutar menores de idade para a formação de quadrilhas: se a proposta for acatada, provavelmente teremos adolescentes cada vez mais novos envolvidos em delitos desumanos.
Não se trata aqui de defender uma opinião contra a emenda. Concordo que o tempo previsto atualmente na lei é muito pouco para criminosos como o Champinha ficarem detidos, ainda que a ex-FEBEM fosse hipoteticamente uma instituição modelo como as previstas pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Pois mesmo que o jovem em questão desfrutasse de um tratamento psiquiátrico/psicoterápico acompanhado de assistência social e profissionalização, seriam necessários mais de três anos para uma recuperação satisfatória (e ainda assim tenho dúvidas se ele estaria apto para viver em sociedade). Mas o que temo é que as autoridades se acomodem caso a redução da maioridade penal seja aprovada. Para atacar a criminalidade, é preciso, em termos gerais, reformar o Sistema Penitenciário, aplicar, de fato, o ECA, além de garantir Saúde e Educação gratuita e de qualidade pra toda a população e, concomitantemente, combater a tão flagrante desigualdade social presente no nosso país.

quarta-feira, maio 02, 2007


Tão longe, tão perto

Anos atrás, fui para o Rio de Janeiro com o pessoal do meu curso universitário. O motivo da viagem foi um congresso de psicologia. Mas como eu não conhecia a cidade, decidi não participar do evento e fazer apenas uma viagem turística... Lotamos um ônibus: além de futuros psicólogos, havia um estudante de engenharia sueco e uma estudante de biologia iugoslava (na época, ainda existia a República Federal da Iugoslávia) que também queriam aproveitar a oportunidade de visitar a mais famosa cidade brasileira.
Alguns poucos se hospedaram na casa de conhecidos. A maioria foi para um hotel. Era um lugar simples, mas aconchegante, há 800 metros da Praia de Copacabana. Falaram que antigamente fora um albergue estudantil. Porém o que havia de mais surpreendente no local eram os hóspedes: estrangeiros de várias partes do mundo – australianos, ingleses, chineses, suíços, franceses, espanhóis e estadunidenses. Além do nosso grupo, restava apenas um brasileiro que temporariamente estava morando lá...
Certa vez, um professor disse que ser antropólogo significava olhar o que é nosso com se fôssemos estrangeiros e, por outro lado, olhar o estrangeiro como se fosse nosso. Naquele hotel, fui impelida à uma experiência antropológica. Pois eu e meus amigos brasileiros passávamos muito tempo com aqueles vindos do exterior. No dia em que chegamos, à noite, fomos à Praia Copacabana com eles: foi a primeira vez que pisei em areias cariocas. Também passeei bastante com o sueco e com a iugoslava que vieram com meu grupo. Fui ao Cristo Redentor. Lembro-me de Mats, o sueco, se encantar com a beleza da paisagem mas também se decepcionar com a poluição da Baía de Guanabara. Fui ao Jardim Botânico com duas australianas totalmente desconhecidas até então. Falavam entre elas e andavam rápido. Eu estava mais preocupada em contemplar o lugar. Lá, preferiria estar na companhia de mineiros...
Assim, muito do que senti na Cidade Maravilhosa foi acompanhado de observações e atitudes estrangeiras. Até o pior que o Rio pode “oferecer” só conheci quando Mats foi assaltado. Eu não presenciei o acontecido, mas vi seu desespero e espanto ao chegar no hotel. Levaram cem reais do seu bolso. Nós, os brasileiros, dissemos: “mas você não pode andar com todo esse dinheiro nesta cidade!”. Ele apenas havia tratado o estrangeiro como se fosse o país dele. Por outro lado, compreender seu comportamento e sua angústia exigia, mais uma vez, olhar a situação como se eu fosse estrangeira...

quarta-feira, abril 25, 2007


Refúgio

Sempre gostei de óculos escuros. Além da proteção visual e do fator estético, estar atrás de lentes esfumadas proporciona uma sensação de resguardo e anonimato. Se olhos são as janelas da alma, é ela que é encoberta ao se vestir óculos escuros.
Lembro-me quando eu morava em São Paulo. As pessoas despertavam a minha curiosidade: cada um deveria ter sua história e seu dilema. Crianças, idosos, jovens provenientes de todos os cantos do país. Eu gostava de olhar para eles e imaginar como seriam suas vidas. Assim, na saída da faculdade, enquanto eu esperava o ônibus na Av Paulista, observava os transeuntes e também aqueles que assim como eu aguardava o coletivo. Durante o trajeto para casa, continuava “estudando” os passageiros. Eu não costumava conversar: lá, geralmente, não só cada qual vive a sua vida como também prefere não compartilha-la com estranhos (naquela época, eu igualmente achava melhor que assim fosse...). Quando eu me dirigia ao Terminal Tietê para pegar o ônibus para cá, passava um bom tempo no metrô e era olhando as pessoas entrando e saindo, cochilando, fatigadas, apressadas, sisudas, que eu me distraía.
Mas comecei a me dar conta que em São Paulo poderia ser arriscado o ato de olhar. Havia a possibilidade de ser mal interpretada e sabe-se lá o que acarretaria. Então, passei a usar óculos escuros até quando o tempo estava chuvoso e mesmo no metrô (lá, isto é muito pouco para os outros te acharem estranho...). Desta forma, eu observava à vontade, sem me sentir embaraçada e o mais importante, sem representar uma ameaça ao outro... Minha preocupação era não deixá-lo perceber que seu espaço, de certa forma, foi invadido; ou melhor, não permitir a ele perceber que passou a existir para outra pessoa, deixando de ser mais um na multidão...Os olhos revelam nosso “espírito”. Brilham quando estamos apaixonados! Sorriem quando estamos felizes! Mostram-se distantes quando estamos desinteressados pelo que acontece ao nosso redor – ensimesmados... Abatidos quando estamos tristes. Ou, como na minha experiência paulistana, penetrantes quando estamos curiosos. Assim, se pretende ocultar sua alma, vista óculos escuros e tornar-se-á momentaneamente invisível. Mas por outro lado, não se esqueça de desconfiar de promessas feitas sob as lentes escuras...

quarta-feira, abril 18, 2007


Escola e vestibular. Cadê a Educação?

As escolas, sobretudo as particulares, costumam medir sua qualidade através do número de alunos aprovados nas principais Universidades do país. É comum, no final do ano, encontrarmos nos jornais rostos pintados com a sigla da instituição de Ensino Superior como prova e propaganda da eficiência escolar. Que o sucesso nos vestibulares seja uma forma de estimar o ensino é até admissível: o problema é considerá-lo o único instrumento de avaliação. Se realmente os professores nutrem os alunos apenas dos conteúdos exigidos nos processos seletivos, não estão cumprindo o papel de educadores...
Educar, além de ensinar os conhecimentos curriculares, é promover a cidadania e a autonomia. Imaginem um adolescente capacitado para passar no vestibular para a Faculdade de Medicina da USP, mas que não foi preparado humanamente para isso...Não é à toa que anos atrás um calouro da renomada Universidade foi encontrado morto numa piscina...Este é um exemplo extremo, porém não é difícil encontrarmos na sociedade advogados, engenheiros, arquitetos, psicólogos, administradores, docentes e os mais variados profissionais que ignoram a ética visando somente o próprio bem material...
O que significa fomentar a cidadania? Representa instigar a atenção e o envolvimento dos alunos frente aos problemas político-sociais, levá-los a perceber a importância de ajudar o outro e despertar neles o prazer advindo das ações coletivas. Já a autonomia se relaciona ao aprendizado das responsabilidades e a busca pela independência, financeira e afetiva. Ser autônomo constitui, em outras palavras, desfrutar a liberdade com maturidade suficiente para assumir os próprios erros. Assim, a Educação genuinamente integral, deve propor-se, além de transmitir os conteúdos exigidos no vestibular, formar adolescentes motivados para tornarem-se profissionais conceituados como exemplos de seres humanos. Sem dúvida, a escola não é a única responsável pela educação. Os pais, principalmente nos primeiros anos de vida, são cruciais para o desenvolvimento da criança. Mas tendo em vista que atualmente as crianças vão mais cedo pra a escola e que o tempo com os pais é bastante restrito, o papel dos professores na formação do caráter do indivíduo tem sido cada vez mais importante. Promover o ingresso em ótimas Universidades é uma ótima propaganda, mas não garante que a escola se orgulhará de seu ex-aluno.

quinta-feira, abril 12, 2007


Deixando a “Terra do Nunca”

Mariam passou dez bem vividos anos longe de sua terra natal. De certa forma, foi impelida a voltar. Encontrou velhos amigos e descobriu que alguns, agora, eram apenas velhos conhecidos. Com outros concretizou laços outrora frouxos. Porém, o que lhe trouxe maiores problemas foi a sua inserção em grupos até então desconhecidos...
Quando resolveu treinar vôlei no clube onde passou muito tempo de sua infância e adolescência, sentiu um friozinho na barriga. Conhecia apenas o treinador e um dos garotos. A maioria que lá treinava era meninos e meninas com idade entre 12 e 17 anos. Perto dos 30 anos, Mariam geralmente não tem problemas de conviver com adolescentes. Mas qualquer situação nova que envolva o relacionamento com pessoas desconhecidas, deixa-a ansiosa. Assim, quando chegou, procurou se resguardar. Estando treinando também em outro local, Mariam até que não jogava mal. Por isso, de início, foi bem aceita e sentiu-se mais à vontade para soltar-se. Porém, bastou que ela cometesse alguns erros para que a garotada começasse a reclamar e pegar insistentemente no seu pé...Quebrou-se a harmonia.
Por muitos anos, Mariam fora aquele tipo de pessoa que ouvia desaforos e não revidava. Mas a vida lhe ensinou que a passividade faz mal à saúde. E, embora ela saiba que responder de forma hostil não é o adequado quando se busca o respeito e uma possível mudança da atitude do outro, às vezes ela reage assim perante as provocações dos meninos do vôlei. Depois se entristece com o próprio comportamento. Fica se perguntando como deixa se provocar por esses garotos. Por que se irrita tanto? E enfim, num pensamento típico de adolescente questiona-se: “Por que eu?”.
A resposta às suas indagações não é um mistério. Mariam é de certa forma ingênua: costuma dizer o que pensa. Gosta de relacionar-se com qualquer pessoa. Interessa-se pelo outro, pelo que ele tem de singular. E da mesma forma, ela se entrega. Por que a provocação dos garotos à afeta tanto? Primeiro, porque ela não encontrou a maneira ideal para lidar com eles e, segundo, porque além dela conhecer-se o suficiente para saber que a crítica destrutiva só prejudica seu desempenho, está ciente de que elogiar os acertos, mesmo os mais elementares, é a forma mais eficiente de ensinar, seja um esporte, uma disciplina acadêmica ou qualquer habilidade da educação informal.

quarta-feira, abril 04, 2007


A ministra, a imprensa e o racismo

Na semana passada, a ministra Mathilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, tornou-se alvo da imprensa devido à entrevista que ela concedeu à BBC (emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido). Como é de praxe, a mídia brasileira destacou algumas falas da ministra, retirando-as de seu contexto: “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco" [...] A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural[...] Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”. Foram estas as palavras que chegaram à maioria da população brasileira, sendo alteradas conforme o interesse da emissora (O Jornal do SBT, por exemplo, ao realizar um debate interativo, convidou os telespectadores a opinar a declaração da ministra, que segundo o âncora era a seguinte: “A reação de um negro de não conviver com um branco é normal” e “é normal o racismo do negro contra um branco”. Ao trocar a palavra natural por normal, o jornalista distorceu o sentido da sentença, enviesando o pensamento do público).
Lendo-se a entrevista na íntegra, constata-se a má-fé da imprensa brasileira. Quando a ministra disse que não é racismo o negro se insurgir contra o branco, ela logo completou: racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros”. E, ao apontar que é natural um negro se recusar a conviver com o branco, ela emendou: “... embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa”.
Deixando a mídia de lado e refletindo agora sobre os dizeres da ministra, considero bastante pertinentes suas considerações, uma vez que a reação do negro ante o branco é conseqüência não só da escravidão, mas também dos dias atuais (afirmar que não existe mais discriminação étnica é hipocrisia...). Qual a primeira reação de uma pessoa quando é ofendida? E mais: qual a atitude de alguém que desde pequeno é discriminado? De fato, responder “na mesma moeda” não condiz com o ideal de uma sociedade harmônica. Porém, exigir cortesia imediata de quem acabou de ser atacado é demandar um caráter sobre-humano! Querer que o negro “ofereça a outra face” é mais um sinal de racismo, pois é exigir deles uma perfeição cristã que a maioria de nós está longe de possuir. Não é racismo o negro rebelar-se contra o branco. É apenas HUMANO!

quarta-feira, março 28, 2007


Somos a soma dos nossos sonhos

Não sei quem é o autor da frase-título acima. Li num cartaz há alguns anos. Não esqueci mais. Gosto de refletir sobre seu significado. Este varia, primeiramente, a partir do que se entende pelo termo “sonhos”. Se for tomado como eventos que acontecem enquanto dormimos, cair-se-á em raciocínios sobre a psiquê humana, especialmente acerca do inconsciente. Mas minha intenção aqui é outra: pensar esta frase considerando “sonhos” como aspirações e desejos sobre si mesmo e o mundo.
Sob esta perspectiva, pode-se concluir que “somos o que queremos ser” ? Afirmar isto, desta maneira, seria simplificar demais a questão, o mesmo que dizer “querer é poder”. Todos sabem que a vida é complicada. Gênios da lâmpada que realizam nossos desejos de forma imediata só existem na fantasia. Vejo assim: se seguirmos nossas aspirações, se lutarmos por elas, estaremos de certa forma realizando-as, ainda que não plenamente. É como costumam dizer: o importante é o caminho e não o ponto final.
Já conheceram alguém sem sonhos? Uma pessoa assim não tem motivação para nada. Não se empenha no dia-a-dia. Sem objetivos, ela não consegue viver o presente. Sua vida acaba perdendo o sentido... Há de se considerar também aqueles que traçam planos mirabolantes sem considerar a viabilidade de sua realização: ficam paralisados diante das dificuldades, justamente por não pensarem nelas. È certo que sonhar não tem limites. Qualquer um tem o direito de desejar tornar-se o que bem entender. Posso ansiar ser uma astronauta, mas terei que me dedicar e considerar as perdas e os ganhos. Não adianta apenas querer e no final da vida lamentar pelo não foi. E o que é pior: culpar o mundo por isso.
É importante observar também que a frase em questão refere-se a uma somatória de sonhos. Pois todos têm vários sonhos que se desdobram nos diferentes aspectos do viver: carreira, relacionamento, filhos, religião etc. Conciliá-los nem sempre é uma tarefa fácil. Porém não há como fugir. Por toda vida, somos impelidos a escolher.
Acreditar que de fato somos a soma dos nossos sonhos significa reconhecer a responsabilidade sobre o tipo de pessoa que nos tornamos e acerca da vida que construímos ao nosso redor. Mesmo que as circunstancias venham de encontro à realização de nossos anseios, saber que fizemos o que era possível nos proporcionará a sensação de “dever” cumprido.

quarta-feira, março 21, 2007


O momento do basta!

Quando temos um problema de saúde e sabemos que a ingestão de certa substância agrava nosso estado, o que fazemos? Normalmente, ou deixamos de consumi-la ou reduzimos a sua absorção. Se formos adictos a ela, abandoná-la exigirá uma transformação de nossos hábitos acompanhada de uma adaptação do nosso organismo. Porém algumas pessoas, mesmo cientes do mal que estão fazendo à própria saúde, não abdicam das práticas nocivas...Como qualificamos tais indivíduos? Insensatos, estúpidos, suicidas?
Agora, examinem esta situação: estamos imersos num organismo gigantesco que por bilhões de anos conseguiu manter um equilíbrio ideal para que vivêssemos nele. Décadas atrás, “ele” deu os primeiros sinais que sua harmonia fora afetada. Não demos muita atenção, pois o conhecimento nos havia ensinado que este organismo era forte o suficiente para se recuperar por si só. Assim, perpetuamos nosso “progresso”, garantindo a satisfação de nossos desejos. Mas, inesperadamente(?), a saúde do imenso organismo vem se tornando cada vez mais debilitada. Inevitável: a natureza está exibindo sua “insanidade”! Sim, sempre existiram furacões e terremotos. Porém, as regiões e intensidade costumavam ser previsíveis. Antes, os cientistas consideravam ser impossível um furacão no Atlântico Sul...Lembram-se do furacão Catarina que atingiu o Sul do Brasil em março de 2004? E o que dizer das altas temperaturas, das chuvas torrenciais com suas conseqüentes enchentes?
Assisti ao documentário “Uma Verdade Inconveniente”, do ativista e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, o que me impeliu a escrever estas linhas. Vejam! Não há como permanecer indiferente à questão do aquecimento global depois dos dados ali apresentados. Parece ficção científica, mas infelizmente não é. Se continuarmos com as mesmas atitudes, despejando inconseqüentemente gás carbônico na atmosfera, daqui a apenas 50 anos (!) este grande organismo o qual chamamos Terra não será apto à vida humana. Em relação às autoridades estadunidenses (que insistem em ignorar o fato de que o ser humano é o responsável pelo descontrole ambiental), Al Gore ironiza: “É difícil para um homem entender algo quando seu salário depende do seu não entendimento” (Upton Sinclair).
Como é mesmo que qualificamos aqueles que mantém os mesmos costumes embora saibam o mal que estão causando?

quinta-feira, março 15, 2007


Sonhos?

Já é praxe a constatação de que estamos numa época onde beleza, juventude e felicidade tornaram-se sonhos de consumo. Pois bem, convido-lhes a imaginar a seguinte situação: o preço das cirurgias plásticas, das aplicações de botox e dos implantes de silicones foi extremamente barateado, permitindo a qualquer pessoa recorrer a estes procedimentos. Além disso, os laboratórios farmacêuticos criaram uma pílula da alegria que impede qualquer sentimento de frustração e angústia (sem efeitos colaterais) e pode ser adquirida em toda rede de saúde pública. Imaginaram? Agora suponham que a população em massa aderiu a todos estes “benefícios”. Qual seria o resultado?
Dando continuidade à idealização, desenho o ulterior cenário: avós de faces lisas como de Vera Fisher e cinturinha vide Gisele Bündchen; avôs com rostos à la Tarcísio Meira e corpinho tamanho Rodrigo Santoro. Vejo também crianças, jovens e adultos esbanjando contentamento. Sim, no início tudo é festa: o sonho virou realidade! Mas, com os passar dos anos, as pessoas cansaram-se da alegria desmedida, pois nada afetava os ânimos exaltados: nem a morte de um ente querido era capaz de derramar lágrimas. Assistiam às notícias catastróficas e não se sensibilizavam. E quanto à beleza? A imutabilidade de seus rostos não era mais tão agradável como outrora. Perceberam que pouco de humano havia lhes restado...
Projetar o futuro de forma fantasiosa permite a reflexão sobre a vida que estamos construindo. As conseqüências geradas pela busca incessante da juventude e do corpo ideal nunca foram tão alarmantes: casos de jovens anoréxicas e bulímicas e de mortes decorrentes de cirurgias plásticas e implante de silicone são cada vez mais comuns. Somando-se a isto, vê-se aumentar o número de pessoas que sofrem de depressão e ansiedade enquanto um estado permanente de felicidade é cruelmente exigido.
Dias atrás, em entrevista à Folha Ilustrada, a renomada atriz Laura Cardoso, 79 anos, declarou que suas rugas, cada traço de seu rosto, contam uma história de sua vida, e por isto jamais faria uma plástica...Parece-me essencial considerar o envelhecer um processo natural que, apesar de suas perdas, poderá ser vivenciado ativamente dependendo da maneira como se enfrenta os infortúnios cotidianos e a inevitável passagem do tempo. Ainda temos tempo de aceitar que somos humanos.

quinta-feira, março 08, 2007


Por nós, mulheres!

Hoje é comemorado o “Dia Internacional da Mulher”. Há controvérsias sobre a história que originou a escolha da data para tal solenidade, mas a explicação de maior consenso é a seguinte: trata-se de uma homenagem a 130 operárias de uma tecelagem de Nova York, assassinadas por patrões e policiais, em 8 de março de 1857. Elas estavam em greve reivindicando a redução da jornada diária de trabalho de 14 para 12 horas e o direito à licença-maternidade. Represadas pela polícia, as trabalhadoras refugiaram-se na fábrica, cujas portas foram fechadas e o prédio incendiado!
Porém, algumas mulheres consideram o “Dia Internacional da Mulher” uma forma de perpetuação do machismo. Argumentam que é uma hipocrisia aceitarmos esta homenagem datada, já que continuamos arcando com a desigualdade durante todo ano: a data funcionaria apenas como uma recompensa pelos danos sofridos. De fato, esta alegação tem sua lógica. Mas meu ponto de vista é divergente: todo dia 8 de março se faz importante na medida que as conquistas das mulheres são destacadas e reivindicações que não foram contempladas são colocadas em pauta.
Hoje em dia, presencia-se mulheres ocupando cargos políticos de grande relevância. Por exemplo, Michelle Bachelet, presidente do Chile (primeira mulher do planeta a conseguir tal feito). E, além disso, a socialista Ségolène Royal é forte candidata à presidência da França. O que não significa que os “dias machistas” estão contados. Basta olhar ao redor. Os pais (refiro-me às figuras maternas e paternas) transmitem aos seus filhos papéis estereotipados sobre os gêneros. De forma geral, adolescentes em grupos induzem, mutuamente, comportamentos sexistas. E, para orquestrar a opressão masculina, tem-se a mídia: recentemente, matéria capa da Folha Ilustrada trazia depoimentos de atrizes veteranas opinando sobre cirurgias plásticas e derivados. Uma delas revelou que um diretor de TV, ao oferecer-lhe um papel, perguntou se ela estava bonita...
Mesmo que cada vez mais camuflada e considerada politicamente incorreta a discriminação de gêneros propaga-se. Se defenderem que o “Dia Internacional da Mulher” acentua esta desigualdade, pois a sua comemoração seria a constatação e afirmação da diferença, responderei: é preciso pender para um lado para se atingir o equilíbrio.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007




Má-educação

Quando dirijo pela cidade, vejo motoristas e passageiros atirando lixo pelas janelas dos carros. Às vezes, é alguém que está comigo que comete tal deselegância, mesmo tendo uma sacolinha para os entulhos no interior do veiculo. Os objetos arremessados variam: papel, copo plástico, latas de alumínio e, absurdamente, garrafas de vidro. É um péssimo costume que, embora não se restrinja aos barretenses, infelizmente é muito comum aqui.
Na minha época escolar, se um aluno lançava um papel ao chão, o professor logo dizia: “Você faz isso na sua casa?”, mandando-o recolher e jogá-lo na lata de lixo. E é disso que me lembro quando alguém suja as ruas da cidade. Tratando-se de um passageiro meu, meu desejo é frear o carro e ordená-lo a pegar o resíduo. Já, estando a pessoa em outro veículo, minha vontade é chamar sua atenção por seu ato grosseiro. Em ambos os casos, minhas ações só ocorrem em pensamento, pois se eu tomasse as atitudes ansiadas provavelmente perderia amigos e arrumaria muitas desavenças no trânsito.
Um dia desses, jogando conversa fora, meu irmão atentou-me para outra prática rude. Toda vez que ele oferece um churrasco ou um jantar à lenha, seus convidados fumantes atiram as bitucas no seu jardim, embora haja inúmeros cinzeiros. Não refletem nem por um segundo que as plantas não merecem tal desprezo e muito menos pagar pelo vício de alguns. Além do que, quem arca com a sujeira pós-festa é sempre o anfitrião. Creio que isso ocorre nas casas de muitos de nós...
Em tempos em que a questão ambiental vem sendo a preocupação crucial da humanidade, está mais do que na hora de começarmos a fazer, pelo menos, o que preza a boa-educação. É fato que quanto mais sujo um local está, mais lixo depositamos lá. E não é por falta de lixeiras. Um exemplo de como só a presença delas não é suficiente ocorre durante a Festa do Peão: o Parque tranforma-se em um imenso depósito de resíduos. (Porém, um maior número de cestos de lixo nas ruas da cidade é sempre bem-vinda!). Uma cidade limpa, além de proporcionar beleza, mostra o quanto seus cidadãos importam-se com o espaço público (o mesmo vale para os convidados de nossas festas). Se cada um se conscientizar da importância de manter a higiene do local que parece não pertencer a si, conservando-o limpo, dificilmente alguém se atreverá iniciar sua deterioração.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007


Dilemas

A trágica morte do garoto João Hélio suscitou inúmeros debates acerca da personalidade dos algozes e sobre a pena mais adequada para eles. No último domingo, o caderno Mais da Folha de S. Paulo apresentou diferentes pontos de vista sobre o caso. Esta leitura, acrescida de minhas próprias concepções, desdobrou-se na reflexão aqui apresentada.
A característica humana que sustenta o conviver é a empatia. Ser empático significa conseguir colocar-se no lugar de outra pessoa, ou seja, sentir e experimentar o mundo a partir da perspectiva alheia. Dela deriva-se a compaixão: o sentimento de pesar que apresentamos frente ao sofrimento de alguém. Tal atributo é exercido com menor esforço diante daquilo que conhecemos. Mas a empatia genuína ou absoluta é a do indivíduo que consegue reconhecer qualquer um como ser humano, e, portanto, digno de compaixão.
No infanticídio que chocou o país, está evidente que os assassinos carecem de empatia. O mínimo sofrimento de uma criança gera, na maioria de nós, o ímpeto de cessá-lo. Se formos nós que provocamos a dor (física e/ou psicológica), sentimo-nos culpados depois. Já os responsáveis pela morte do garoto nada sentiram e, pelas declarações dadas, não se arrependeram. Assim, pergunto-me: qual seria a pena adequada para eles? Se eu responder que merecem uma morte terrível, estaria me igualando a eles (uma vez que isto denotaria que não me coloco no lugar deles e não os considero humanos)? Custa-me encontrar humanidade neles - algo a partir do qual suas vidas se justifiquem. Trata-se de uma questão sobre a qual não tenho uma opinião definitiva, pois não sei dizer se estes jovens são recuperáveis. Desconheço até que ponto a compaixão pode ainda ser imbuída nos seus espíritos.
O Poder Público está, atualmente, diante de um dilema: dar aos adolescentes criminosos (e agora me refiro a qualquer menor infrator) uma chance de humanizar-se mediante ao aumento do tempo de internação e à efetivação das medidas sócio-educativas contidas no ECA ou deixar que, a partir da redução da maioridade penal, sejam “educados” nas cadeias ou mesmo punidos fatalmente pelos presidiários – diga-se de passagem, uma hipocrisia do Estado brasileiro que, ciente da forma como os presos tratam autores de crimes hediondos, transfere a responsabilidade sobre a vida dos condenados a eles, ou seja, torna possível a prática da pena de morte, ainda que extra-oficialmente.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007


Despedidas

Existem épocas em que experimento um imenso vazio. É como se eu sentisse um soco no estômago direcionado à alma. Fico entontecida! Parece que não há nada que mudará esta sensação. Por alguns instantes, é eterna!
Quando eu era criança, momentos assim aconteciam com mais freqüência e com maior intensidade. Bastava encerrar-se as festas de fim de ano, uma Copa do Mundo, o Carnaval ou as férias escolares de Julho...O vazio chegava...Devorador...Sentia uma tristeza que não sabia ao certo de onde vinha. Sei que em todas as ocasiões citadas, eu estava rodeada de pessoas, principalmente da família. Eu vivia cada segundo como se fosse o último, sem pensar no amanhã. Depositava toda minha energia nas brincadeiras, nos jogos, numa ida à sorveteria. O fim de cada um destes períodos significava a volta à rotina e a espera para o reencontro.
Com o tempo, além de eu ter crescido, os parentes não reúnem mais como outrora. As festas em dezembro não são mais as mesmas. E nem todos tem férias em Julho. No entanto, dias atrás, o vazio voltou. Veemente como na infância. As férias voltaram a ser especiais: além meu namorado passar quase dois meses em minha casa, dois primos meus, Eric e Carla, permaneceram por cerca de um mês por aqui. E eu, apesar adulta, não perdi a mania de viver como se eles não fossem partir...Mesmo que eu escrevesse páginas e páginas sobre o que fizemos, talvez não achassem nada extraordinário. Não fomos à praia. Eu, meu amor e minha prima passamos muitíssimo tempo juntos. Assistimos à diversos filmes. Fuçamos bastante no Orkut e vimos vários vídeos no Youtube (descobri que usar o computador não é algo que se faz necessariamente sozinho). Tomamos sorvete demais! Passeamos nos fins de semana E, sobretudo, conversamos...
Para coroar esta temporada, fomos no casamento de um primo nosso, em Ribeirão Preto. Quase toda a família reunida. Dançamos e conversamos o quanto foi possível. No dia seguinte, ainda em Ribeirão, o vazio foi chegando de mansinho. Primeiro minha priminha e seu irmão se foram. Mais tarde, meu amor... O choque mesmo eu senti quando retornei para casa. Um quase silêncio perturbador. Não escutava mais os passos do Eric, não ganhava beijos amorosos e não me divertia com os “causos” da Carlinha. Doeu! Mas enfim aprendi que a falta nos ensina a valorizar a vida e as lembranças estão aí para nos confortar.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007




Big Brother é o Brasil?

Recebi um e-mail que reforçou a minha opinião sobre o Big Brother Brasil: aproximadamente 29 milhões de brasileiros ligam para votar e sendo o preço da ligação R$ 0,30, o total gasto é de 8.700.000. Numa só noite! O Criança Esperança não consegue tal feito....
Eu posso até entender porque o Big Brother tem tanta audiência: no geral, as pessoas gostam de saber da vida alheia e, poder presenciá-la assim, ao vivo, já é um atrativo forte; além disso, o programa passa a sensação ao público de que este tem o controle da vida dos participantes, pois a saída da “casa” é decidida através da votação dos telespectadores. Um outro ponto, não menos importante, é o fato que os “big brothers” não são pessoas famosas e, pelo menos idealmente, são indivíduos comuns como qualquer um de nós: facilmente nos identificamos.
Entendo. Mas urge refletir sobre as explicações que listei acima. Primeiro: é prazeroso saber da vida alheia, mas o que há de tão especial no dia a dia desses participantes? O que há para ver? O cotidiano deles está distante de ser o que fazemos todo dia. Segundo: os telespectadores decidem sim a saída de um membro do programa, mas estão longe de decidir o futuro de vida deles. È uma falsa sensação. É um “truque” muito semelhante ao das propagandas publicitárias. Terceiro: os “big brothers” são pessoas escolhidas a dedo pela produção e duvido que não foram selecionados com a intenção de cativar a audiência (da mesma forma que os atores são escolhidos para seus papéis nas telenovelas).
Para compreender o fenômeno Big Brother com mais clareza, centrei-me na questão da identificação. Os participantes do programa não se mostram como pessoas inteiras (ainda tenho fé que não são somente o que parecem). Querendo ou não, estão representando na tentativa de agradar os mais variados tipos de brasileiros. É extremamente difícil ser genuíno nesta situação. A alternativa é mostrar o que é aceito socialmente, falar sobre o que todos entendem. Porém, isto não é um empecilho para o funcionamento do programa e sim o que permite seu sucesso: qualquer telespectador pode se colocar no lugar do participante, ou melhor, ocupar o lugar do “big brother”. Vence aquele que transmite um vazio suficiente para que a maior parte dos telespectadores possa se ver no papel dele.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007


Paródia da vida contemporânea


Aparentemente, Click é um filme cômico despretensioso. Quando resolvi assisti-lo não imaginei a riqueza de seu conteúdo.Não vou contar detalhadamente seu enredo, mas apenas o que for necessário para que a reflexão suscitada em mim seja compreendida.

Michael é um arquiteto, casado e com dois filhos pequenos. Dedica-se sobretudo ao trabalho e sua maior ambição é tornar-se sócio da empresa para a qual trabalha. Mas sua esposa e filhos estão cansados de sua falta de tempo. Num dia de stress, Michael conhece um homem misterioso que lhe presenteia com um controle remoto que lhe permite, entre muitas outras funções, acelerar o tempo, sem que ele precise passar por acontecimentos que julga desagradáveis, como brigas com a esposa.Para ser nomeado sócio da empresa, ele acelera um ano de sua vida. Porém, Michael não havia se dado conta que, após o controle acelerar o que havia sido selecionado por ele durante este tempo, sempre se comportaria desta forma. A partir daí todas as noites de amor e todos os fatos rotineiros como tomar banho e dirigir até o trabalho eram “pulados”. Nestes momentos, ele interagia com outros automaticamente: parecia um zumbi. Assim, seu casamento vai se desmoronando e Michael se desespera.

Trazendo a ficção para realidade, vejo o controle mágico do filme como a nossa vida ou, para ser mais exata, como o cérebro de cada um de nós. Estamos tão preocupados com o amanhã e com o conforto material que esquecemos de desfrutar o momento presente e o que nós já conquistamos. Tomamos café da manhã pensando no almoço. Namoramos pensando no que dia em que formos casados. Vemos nosso filho nascer pensando no que falarão nossos amigos ou como ficará o vídeo do nascimento... “Ligamos o automático” para o pôr-do-sol, para o bom-dia. Voltamos a existir no trabalho, onde planejamos um dia ter tranqüilidade para dar atenção à família. Porém, nos esquecemos que quando este momento chegar tanto não saberemos mais apreciar as coisas simples da vida como provavelmente já teremos perdido o afeto daquelas pessoas deveras importantes para nós.

O que nos tornamos depende do que fazemos no dia-a-dia. Nosso cérebro se modifica com nossas experiências e ao insistirmos numa certa forma de pensar e agir condicionamo-nos à assim ser. Somos livres, mas não é raro nos deixarmos escravizar por nós mesmos, desperdiçando toda uma vida devido à distorção do conceito de felicidade.

sexta-feira, janeiro 26, 2007


Apimentada

Sexta-feira passada, 19, completou-se 25 anos da morte daquela considerada por muitos, a maior voz do país. Elis Regina disse adeus no auge de sua carreira, aos 36 anos. Jovem e enérgica.
Não tive o privilégio de apreciá-la nos seus anos de ouro. Não a vi na televisão, junto a Jair Rodrigues apresentando “O Fino da Bossa”. Não a vi enlouquecendo a platéia nos festivais da Rede Record... Mas hoje em dia, com toda a tecnologia disponível, as gerações que não conheceram Elis, podem desfrutá-la.
Meses atrás encontrei no Youtube uma apresentação dela no Fantástico, em 1975. Fiquei embasbacada! Ela interpreta raivosamente “Como Nossos Pais” (mas seria melhor dizer que ela VIVE essa música enquanto canta!). É de arrepiar! Em outro vídeo, de 1979, no Festival de Jazz de Montreux (Suíça), ela canta Asa Branca com Hermeto Pascoal ao teclado, revelando sua meiguice ao sorrir e acariciar os longos cabelos brancos do compositor multiinstrumentista...
Elis foi polêmica: não media as palavras! Incomodou a ditadura e a mídia. Se fosse baiana, seria “arretada”. Era a Pimentinha. Revelou compositores como Miltom Nascimento, Ivan Lins e Gilberto Gil. Teve a audácia de dispensar Chico Buarque, em 1965, achando-o tímido demais – “cara de jiló” – na ocasião em que ele foi visitá-la oferecendo-a “A Banda” para que ela cantasse no Festival (Nara Leão cantou a música de Chico e dividiu o primeiro lugar com Jair Rodrigues, em 1966, no primeiro Festival da Record). Felizmente, embora não tenham se tornado grandes parceiros, Elis cantou algumas obras de Chico, brindando-nos, por exemplo, com sua incomparável interpretação de “Atrás da Porta”.
Muitos se perguntam por que alguém com tanta vitalidade, uma carreira brilhante e três filhos pequenos, morre por ingerir drogas e álcool. É arriscado julgá-la, pois uma estrela é praticamente inalcançável... Não acredito que Elis desejava pôr fim à sua vida e nem ao menos estava insatisfeita com ela. Preparava um próximo disco. Os artistas que a rodeavam dizem que ela não era muito afeita à cocaína. Experimentara havia um ano. Foi um acidente. Uma dose a mais. Um descontrole de alguém que um dia declarou: “Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé”.

domingo, janeiro 21, 2007


A árvore

Fernanda tinha seis anos. Mariam tinha nove. Descobriram-se vizinhas. Quando a primeira fez sete, convidou Mariam e a irmãzinha dela, Ariane, então com seis anos, para seu aniversário. Foi o começo de uma grande amizade...
Assim que terminava as tarefas escolares, Mariam chamava Fernanda e divertiam-se pelo resto do dia, sempre acompanhadas de Ariane e outras amigas também vizinhas. Brincavam de casinha, dançavam lambada, jogavam Top Game, passavam trote às escondidas no telefone...Á noite, juntavam-se aos meninos que moravam nos arredores e brincavam de “pique-esconde”, “mamãe-da-rua”, “beijo-abraço-aperto-de-mão” e importunavam a idosa que não deixava a garotada passar de bicicleta na sua calçada. Nada poderia ser melhor que a vida que levavam!
Todo dezembro, a mãe de Mariam e Ariane fazia a Novena de Natal. Fernanda sempre estava lá. Rezavam, cantavam Noite Feliz e comiam sonho-de-valsa. À noite, as três reuniam-se com outras amigas e iam no centro, espiar as lojas e tomar sorvete. Na volta, apertavam a campainha das casas e corriam...
Esperavam ansiosamente o carnaval. Fernanda, Mariam e Ariane pulavam na matinê do clube incansavelmente, ao som das antigas marchinhas e de músicas infantis. Os foliões se abraçavam e iam andando atrás dos outros, formando um círculo. A “roda” – como era conhecida esta brincadeira – era o ápice da diversão!
Ariane ganhou um karaokê (daqueles antigos – um tape com microfone). As três saíam na rua cantando com este aparelho na mão. Batiam nas casas dos vizinhos e quando o dono aparecia, entoavam: “alô galera, atenção rapaziada, a TV Pirata vai entrar de férias e vai voltar com a bola toda”. Elas estavam de férias. Emendavam paródias inventadas por elas. Ninguém esbravejava com o “número” e elas não se envergonhavam do papel que faziam.
Mariam já era adolescente e se afastara de Fernanda e Ariane quando elas colocaram placas de madeira em cima de uma árvore vizinha. Mariam não agüentou. Tinha que desfrutar disso. Leu “Amor de Perdição”, exigido pela escola, lá. A árvore as reaproximou.
Quinze anos após este episódio, Mariam e Fernanda têm uma amizade incondicional. E Ariane está sempre por perto, como quem não esquece jamais algumas de suas raízes.